terça-feira, 5 de março de 2013

Copa dá arenas a quem não precisa e ignora quem as quer
Em quatro cidades-sede de 2014, estádios têm futuro incerto. Enquanto isso, algumas capitais tradicionais do futebol no país assistirão a Copa à distância
Giancarlo Lepiani - VEJA
Quando o Brasil foi confirmado como sede da Copa do Mundo de 2014, sete anos atrás, a promessa do governo e da CBF era de que o país faria um Mundial "dentro de suas possibilidades", sem exageros nem gastos desnecessários. Esse compromisso foi ignorado logo no início dos preparativos para o evento, quando os brasileiros decidiram que doze cidades receberiam as partidas da Copa. Melhor teria sido repetir alguns dos últimos anfitriões de Copas, como Estados Unidos-1994, França-1998 e África do Sul-2010, que fizeram seus torneios em apenas nove cidades. Esse número foi o bastante para realizar todas as partidas sem grandes apertos e receber todos os visitantes estrangeiros sem problemas. Ou seja: se quisessem mesmo gastar menos dinheiro, o governo e o Comitê Organizador Local (COL) teriam sido mais comedidos na distribuição das partidas da Copa pelas cidades brasileiras. No jogo da política, porém, a preocupação com o dinheiro público não costuma fazer parte das regras. Mais cidades-sede significam mais obras espalhadas pelo país (e mais poder e influência para os responsáveis pela indicação das escolhidas à Fifa). Assim, a Copa de 2014 terá doze palcos - e, em alguns deles, já se sabia desde o início que os gastos com o Mundial poderiam ser um mau negócio.
Confira as demais reportagens da série:
Quarta-feira: Na capital federal, nasce o principal elefante branco da turma de 2014
Quinta-feira: A ilusão das 'arenas multiuso', que só dão lucro nas metrópoles
Sexta-feira: Como ganhar dinheiro com um estádio - a lição dos grandes da Europa

O Brasil é um país de dimensões continentais e tem muitas cidades de grande porte. Em muitas delas, há carências urgentes, principalmente no que se refere à infraestrutura. Num cenário perfeito, a Copa seria uma oportunidade de ouro para espalhar o desenvolvimento por essas localidades, usando o megaevento como um ótimo pretexto para investir de forma inteligente e melhorar a vida das pessoas. Fosse mesmo assim, quanto mais cidades envolvidas, melhor. A pouco mais de um ano da abertura do Mundial, já ficou claro que isso não deve ocorrer. Muitas das obras de mobilidade urbana, por exemplo, já foram deixadas de lado. Os aeroportos também não devem melhorar tanto quanto se prometia. As únicas obras inescapáveis são mesmo os estádios - e, em algumas das sedes, eles têm tudo para virar um problema, não uma solução. Nas cidades em que não existe uma agenda de grandes eventos esportivos e culturais frequentes o bastante para manter as novas arenas ocupadas, a Copa pode significar apenas desperdício de dinheiro público - afinal, a manutenção desses estádios custará muito dinheiro. Ao mesmo tempo, cidades que respiram futebol o ano todo - e que teriam plenas condições de receber jogos de Copa - ficaram de fora da lista. No país da Copa, portanto, quem precisa de desenvolvimento ganhará um estádio novo, caro e inútil depois de 2014 - e quem poderia oferecer uma nova e rentável arena está fora da festa.

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