Decisão da Vale acirra tensão entre Brasil e Argentina
Cancelamento de projeto de potássio, maior empreendimento em curso no vizinho, deve endurecer negociações bilaterais
RENATA AGOSTINI - FSP
As negociações entre Brasil e Argentina tendem a ficar mais tensas diante do cancelamento do projeto de potássio da Vale no país vizinho.
A decisão de extinguir o negócio, que teve consentimento da presidente Dilma Rousseff, é considerada "emblemática", já que se tratava do maior empreendimento em curso no país vizinho, relataram interlocutores do governo à Folha.
Batizado de Rio Colorado, a operação de potássio empregava quase 5.000 pessoas e traria investimentos de pelo menos US$ 5,9 bilhões para a economia argentina.
O projeto havia sido adquirido pela Vale em 2009, por US$ 850 milhões. O potássio é matéria-prima para fertilizantes.
A orientação a assessores do Palácio do Planalto e do Itamaraty é manter o tom amistoso das declarações oficiais, mas a tendência é que o Brasil endureça nas negociações bilaterais, como na do novo regime automotivo, e em conversas sobre investimentos futuros.
A falta de flexibilidade dos argentinos nas negociações causou irritação no governo, que chegou a destacar uma missão, sob liderança do ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento), para negociar uma solução para o caso da Vale.
Diante das constantes negativas, o governo brasileiro decidiu se retirar da frente de negociação e liberar a mineradora a suspender o projeto, decisão oficializada anteontem.
IMPASSE
O principal impasse dizia respeito ao custo do empreendimento, que, diante de exigências fiscais e trabalhistas e de um câmbio desfavorável, havia saltado de US$ 5,9 bilhões para US$ 11 bilhões.
O debate sobre o negócio havia sido adiado pelo conselho de administração da mineradora em reunião há duas semanas a pedido do governo.
A eventual retomada das conversas sobre Rio Colorado não está completamente descartada.
Novas discussões, porém, dependem de uma sinalização do lado argentino, segundo assessores do governo.
O envio de uma nova missão governamental para tratar do assunto, como feito na semana passada, não está na pauta no momento.
COLAPSO
O governo brasileiro só não joga completamente a toalha sobre o tema porque vem crescendo o temor de que a economia argentina entre em colapso, o que traria prejuízos imediatos ao Brasil.
Além de se ver obrigado a socorrer financeiramente o país vizinho, o Brasil poderia experimentar prejuízos ainda maiores em suas vendas externas.
Mesmo após ter registrado uma queda expressiva de 21% nas compras de produtos brasileiros no ano passado, a Argentina ainda ocupa a terceira posição no ranking dos principais destinos de mercadorias do país no exterior, atrás dos Estados Unidos e da China.
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