sábado, 2 de março de 2013

Enigmáticas palavras de Bento 16 prenunciam tempos difíceis caso seja eleito pontífice renovador
Juan Arias - El Pais
AFP

Vaticano libera imagens dos bastidores do último dia do papado de Bento 16. Na foto, o pontífice emite sua última mensagem como papa da sacada principal da residência de verão de Castel Gandolfo, no sul da Roma, local onde vai morar pelos próximos dois meses
Vaticano libera imagens dos bastidores do último dia do papado de Bento 16. Na foto, o pontífice emite sua última mensagem como papa da sacada principal da residência de verão de Castel Gandolfo, no sul da Roma, local onde vai morar pelos próximos dois meses
Foi o papa Bento 16 que decidiu pessoalmente que continuará sendo chamado de "Sua Santidade Bento 16" ou "Papa Romano Pontífice Emérito".
Essa não é uma formalidade. Os cardeais não sabiam como um papa que renunciasse deveria ser chamado. Aquele que a partir das 20h de quinta-feira deveria passar a ser chamado de cardeal Ratzinger, decidiu que continuará com o nome de Papa Bento 16, escolhido em 19 de abril de 2005, quando o conclave o proclamou o novo bispo de Roma e chefe da Igreja Universal.
Ele também continuará se vestindo de branco, como o novo papa, e não de preto, como os cardeais. E seu anel papal, o chamado Anel do Pescador, não foi destruído como quando um papa morre. Ele costuma ser despedaçado com um martelo de prata e marfim, e com esses restos é fundido o anel do próximo papa.
O anel de Bento 16, que ele mesmo encomendou a um ourives italiano, será somente "anulado", não destruído. Ainda não se sabe se continuará ou não na mão do papa demissionário. Ele somente dispensará os sapatos vermelhos e passará a calçar marrons, presente dos cristãos mexicanos.
Os anéis papais são destruídos na morte do pontífice porque antigamente os papas selavam com eles os documentos. Eram destruídos para que ninguém pudesse usá-lo para falsificar documentos oficiais.
Dizem que Bento 16 foi um intelectual melhor do que gestor de uma Igreja que teria escapado de seu controle. A verdade é que ele soube administrar até nos mínimos detalhes sua renúncia e seu futuro.
Além de dizer o dia e a hora em que deixaria de ser formalmente o papa, também decidiu onde passará os dois próximos meses: na casa de veraneio dos papas, o castelo de Castel Gandolfo.
Ratzinger poderia viver onde quisesse, em sua casa natal na Alemanha ou em um país pobre de Terceiro Mundo, qualquer lugar. Mas decidiu continuar dentro do Vaticano, a menos de 100 metros do novo papa, em um convento de freiras situado nos Jardins do Vaticano.
Dessa maneira, a Igreja terá de conviver com dois papas: um formal, que emergirá do conclave, e outro emérito, que se despediu com enigmáticas palavras a serem analisadas de perto pelos teólogos. Ele disse em seu último discurso aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro: "Meu desejo de renunciar ao mandato petrino não revoga a decisão que tomei no dia 19 de abril de 2005. Não voltarei à vida privada. Não abandonarei a cruz".
O que significam essas palavras? O que ele decidiu no dia em que foi escolhido e a quê hoje ele não renuncia? O que ele quer dizer com "não abandonarei a cruz"? A cruz que ele colocou nos ombros no dia da eleição, que ele afirma não abandonar, é a de arcar com o peso e a responsabilidade do governo da Igreja Universal.
Agora o maior problema para o novo papa será como conviver com seu antecessor ainda vivo, vestido de branco como ele, que quis viver ao seu lado e deu a entender que não abandonará o que ele decidiu no dia em que foi eleito bispo de Roma.
Em seu último discurso aos cardeais, Bento 16 declarou sua "reverência e obediência incondicional ao novo papa". Uma afirmação oportuna. No entanto, ele não disse, como muitos teólogos esperavam, que seu sucessor teria "total liberdade de decidir as mudanças na Igreja que ele não pôde ou não quis fazer", que teria sido uma mensagem muito mais importante e prática do que a declaração de "obediência", algo óbvio para qualquer cristão.
Tudo dependerá da personalidade do novo eleito. Se, como se espera, seu sucessor for de alguma forma indicado por ele, com os mesmos princípios teológicos e visão de mundo e da Igreja, a missão do novo papa será relativamente fácil. De certa maneira reinariam juntos sobre a Igreja.
Se o conclave oferecer alguma surpresa e nomear uma personalidade com desejos de abrir caminhos novos com decisões inesperadas, o problema se agravaria. Como apontou o escritor brasileiro Frei Betto, grande conhecedor da história da Igreja e participante do movimento da teologia da libertação, será muito difícil para o novo papa, enquanto seu antecessor estiver vivo, tomar decisões sobre mudanças na Igreja que ele não tomou e nunca tomaria.
Tradutor: Lana Lim

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