segunda-feira, 4 de março de 2013

Polêmico por atacar defensores de direitos humanos e meio-ambiente, presidente tcheco deixará o poder
James Kirchick* - Der Spiegel
Reprodução

Presidente da República Tcheca, Václav Klaus
Presidente da República Tcheca, Václav Klaus
Vaclav Klaus vai deixar o cargo nesta semana, depois de mais de uma década como presidente da República Tcheca. Apesar de ter desempenhado um papel importante na história de seu país, é provável que seu legado fique marcado por suas posições controversas sobre a União Europeia, as mudanças climáticas e um populismo muitas vezes flagrante.
Uma entrevista no início deste mês com o presidente tcheco que está deixando o cargo, Vaclav Klaus, foi rotineira: rancoroso, histérico, e depreciativo em relação a seu antecessor, o poeta, dramaturgo e dissidente já falecido Vaclav Havel.
Numa discussão com o semanário polonês Rzeczy, Klaus ridicularizou o primeiro e bastante admirado presidente da República Checa por promover o "Havelismo" enquanto estava no poder. A filosofia de governo de Havel, explicou Klaus, foi semelhante ao jacobinismo, a ideologia assassina dos revolucionários franceses do século 18 que acabou na guilhotina. A explosão de Klaus lhe valeu uma repreensão da divisão tcheca da PEN Internacional, que pediu para que ele pare de "sujar" a memória de seu predecessor, bem como do ex-dissidente e ministro da Defesa, Sascha Vondra, que apontou corretamente que se Havel de fato tivesse sido um jacobino, Klaus – inimigo político de Havel por um longo tempo - teria sido decapitado.
O "Havelismo" é apenas o termo mais recente cunhado pelo polêmico presidente tcheco, que generosamente acrescentou o sufixo "ismo" a uma variedade de fenômenos que ele detesta: "direitoshumanosismos", "ONGuismo" e "homossexualismo", além de reclamar constantemente contra movimentos mais reconhecidos como o ambientalismo e o "globalismo".
Ao sair do poder em 7 de março, Klaus deixa para trás um legado controverso como a figura política tcheca mais influente do período pós-comunista apenas depois de Havel, que morreu em dezembro de 2011.
Conhecido internacionalmente por negar a mudança climática antropogênica e por sua postura extremamente crítica em relação à União Europeia, Klaus é reconhecido, até mesmo por seus detratores, por desempenhar um papel construtivo na dissolução pacífica da Tchecoslováquia e na privatização da economia tcheca no início dos anos 90, quando atuou como primeiro-ministro. Em comparação com as outras "federações pós-comunistas que se desfizeram de uma forma mais violenta", Jiri Pehe, um ex-conselheiro de Havel, diz que sua liderança durante o "divórcio de veludo" que levou à República Tcheca e Eslovaca independentes "não é pouca coisa". Robert Kron, analista do Centro de Análise de Política Europeia em Washington, diz que a política de voucherização de Klaus no início dos anos 90, que privatizou setores públicos, foi responsável por "gerar uma sociedade que começou a aprender o capitalismo."
Um homem dado ao contrarianismo
Mas década de Klaus na presidência, marcada por testes frequentes dos limites constitucionais do cargo e explosões de raiva sobre questões que vão desde os gays até o aquecimento global, capturam mais precisamente sua influência e caráter. Obrigado a renunciar como primeiro-ministro diante de um escândalo de financiamento partidário em 1997, Klaus permaneceu no parlamento e sucedeu Havel como presidente em 2003. Não contente em realizar apenas as funções do cargo, em grande parte cerimonial, ele usou sua visibilidade recém-conquistada para se reapresentar como um intelectual público no cenário mundial. Ele publicou um livro sobre o tema do aquecimento global, "Planeta Azul em Algemas Verdes", e desafiou o ex-vice presidente dos EUA Al Gore para um debate. Em 2009, apesar da aprovação do parlamento tcheco e uma disposição constitucional obrigando sua assinatura, ele atrasou a aprovação do Tratado de Lisboa da UE até que fosse adicionada uma cláusula proibindo os descendentes de alemães expulsos da Tchecoslováquia depois da 2ª Guerra Mundial de recuperar propriedade no país (Klaus comparou a UE à União Soviética, e recentemente instruiu oficiais militares tchecos a defender o país "contra as tendências de unificação da Europa").
Klaus é tão dado ao contrarianismo que mesmo sua elogia a Havel (um discurso estranho dada a inimizade mútua dos dois homens) fez alguns ouvintes virarem os olhos. "(Havel) também desempenhou um papel importante durante os passos concretos que ele deu tão consciente e decisivamente para apoiar aqueles de nós que não víamos em 1989 simplesmente outro 1968 ou outra tentativa de criar o socialismo com uma face humana", disse Klaus diante de um público de dignitários internacionais. Paul Wilson, o tradutor canadense das obras de Havel, mais tarde afirmou que: "foi como se Klaus, ciente da importância da ocasião, estivesse reservando um lugar na primeira fileira para si mesmo numa eventual revisão da história. Nesse sentido, ele agiu como se esperava".
Embora Klaus tenha ganhado notoriedade pelas coisas que disse, muitas vezes são as coisas que ele não diz, ou que seus assessores mais próximos dizem, que geram mais controvérsia. O vice-chanceler Petr Hajek, braço direito de Klaus, por exemplo, afirmou que os ataques de 11 de setembro foram obra do governo norte-americano. Depois do assassinato de Osama bin Laden há dois anos, Hajek declarou que o líder da Al-Qaeda era uma "ficção da mídia". Num livro publicado no ano passado no 23º aniversário da Revolução de Veludo, "Morte em Veludo", Hajek escreveu que Havel "serviu como uma ferramenta de Satanás" espalhando "ódio e mentiras" (Klaus aprovou o livro). Quando Hajek denunciou os homossexuais como "cidadãos desviados" antes da primeira parada gay de Praga em 2011, Klaus defendeu o termo "desviados" como tendo "valor neutro".
Talvez nenhum episódio tenha sido mais infame do que aquele em que Klaus roubou uma caneta durante uma cerimônia de assinatura com o seu colega chileno em 2011. O vídeo do evento se tornou viral no mundo inteiro. Mas, enquanto o incidente de roubo da caneta rendeu risos, ele também parecia encarnar um homem cujo discurso contundente e comportamento com frequência desconcertante tornou-o uma das figuras mais divisórias na política europeia.
"Ele tem uma filosofia de 'Dr. Não', vendo as forças externas com ceticismo, perguntando 'como podemos proteger nossos interesses contra o invasor estrangeiro?'", diz Kron, do Centro de Análise de Política Europeia, sobre a visão de mundo diz Klaus. Tais atitudes, que o ex-conselheiro Klaus Pehe acredita terem derivado de um mero euroceticismo para se tornar uma "eurofobia" absoluta ao longo dos anos, jogam habilmente com os sentimentos populares neste pequeno território encravado entre vizinhos grandes e historicamente agressivos, duplamente ocupado no século 20, e repetidamente traído por seus supostos aliados.
"Os tchecos, como nação, são muito provincianos e muito burgueses e Klaus se encaixa nesse perfil perfeitamente", diz Pehe. Enquanto Havel falou para o mundo com suas peças, ensaios e apelava a uma humanidade comum, Klaus é um "tipo de líder muito mais em sintonia com o que os tchecos pensam do que Havel era." Klaus desacreditou o movimento dissidente tcheco de uma forma que assegura aos tchecos - cuja grande maioria passou viveu durante a era comunista e não fez nada para se opor ao regime - que não têm nada para se sentirem culpados. Da mesma forma, ele minimizou os esforços ocidentais para causar o colapso da União Soviética. "As políticas do Ocidente para com a Europa Oriental, o Processo de Helsinque – nada disso de fato nos ajudou", disse à Spiegel, numa entrevista em 2006. Não há dúvida de que, com inveja da aclamação de seu antecessor, Klaus ironicamente se moldou como um dissidente no molde de Havel com suas posições contra a integração europeia e comparando a mudança climática a uma conspiração comunista.

Inclinação para o populismo

Klaus demonstrou sua queda para o populismo na eleição presidencial do país em janeiro deste ano, quando pendeu para o lado do ex-presidente de esquerda Milos Zeman em oposição ao ministro das Relações Exteriores, Karel Schwarzenberg, de centro-direita. Depois que Schwarzenberg criticou a expulsão do país dos alemães étnicos no pós-guerra, Klaus observou timidamente que seu sucessor deve ser alguém que passou toda a vida em sua terra natal (a família Schwarzenberg fugiu da Tchecoslováquia após o golpe comunista de 1948; ele viveu no exílio na Áustria). A família de Klaus participou dos ataques; sua mulher afirmou que a primeira-dama deveria falar tcheco (a esposa de Schwarzenberg não fala) e o filho de Klaus alegou que o pai de Schwarzenberg era um colaborador nazista (desde então surgiu a informação de que o sogro de Klaus foi um oficial do regime fascista eslovaco).
Embora Klaus tenha efetivamente endossado Zeman (que acabou vitorioso), o que poderia parecer estranho dado que os dois homens representam pólos opostos do espectro político, isso foi emblemático do estilo político profundamente pessoal de Klaus: não só a perspectiva política internacionalista e cosmopolita de Schwarzenberg se choca com o chauvinismo de Klaus, mas Schwarzenberg era um amigo próximo e aliado de Havel. (Como se para destacar o cinismo por trás de sua intervenção, Klaus tranquilizou a imprensa após a vitória de Zeman de que o novo presidente continuaria sendo seu "antigo e eterno inimigo" e que ele "discorda de quase todas as declarações que ele já fez.")
Em seus 25 anos na política, é difícil encontrar uma única questão geopolítica em que a posição Klaus diferiu da russa, o país que brutalmente invadiu a Tchecoslováquia em 1968 e a ocupou por 20 anos.
Kron atribui essa afinidade à sua "abordagem política muito pragmática e econômica, em vez de ideológica ou emocional" de Klaus, que contrasta nitidamente com as opiniões de Havel, que era profundamente desconfiado da influência russa, em particular quando Vladimir Putin subiu ao poder na virada do século. "A única vantagem que ele vê na integração europeia é na economia", diz Pavol Szalai, um analista político eslovaco. "Tudo o que é político na UE é como a União Soviética."
Mas, estranhamente para um entusiasta do mercado livre que costuma comparar qualquer coisa com a qual não concorda a um ressurgimento do comunismo, Klaus tem sido muito amável com o governo revanchista em Moscou. Klaus se opôs à campanha de bombardeios da Otan na Iugoslávia para evitar o genocídio nos Bálcãs e há tempos é contra a independência da ex-província sérvia do Kosovo, em contradição com a política oficial do governo tcheco. Quando a guerra eclodiu entre a Rússia e a Geórgia em 2008, e uma série de líderes de países do antigo bloco soviético expressou apoio a Tbilisi, Klaus explicitou seu apoio a Moscou, mais uma vez colocando-o em desacordo com a posição do governo tcheco. Numa cúpula Rússia-UE no ano seguinte, Klaus disse que o órgão regional deveria prestar mais atenção às preocupações da Rússia em detrimento da "pequena Estônia ou da Lituânia". Em 2007, Klaus foi premiado com a Medalha Pushkin em nome do presidente russo Vladimir Putin por ter "ajudado a espalhar a língua e a cultura russas".

Confiável entre os tchecos

Ao longo de seus 10 anos ao leme, e apesar de suas declarações frequentemente controversas, Klaus em geral permaneceu popular e confiável entre os tchecos. Entretanto, isso foi até o seu anúncio surpresa de uma anistia ampla em 1º de janeiro. O decreto de Klaus libertou todos os presos que cumprem penas de menos de um ano, pessoas condenadas por crimes não-violentos com menos de dois anos restantes em sua sentença, e indivíduos com idade superior a 70 anos de cujas penas restavam apenas três anos para cumprir - cerca de 7 mil presos no total. O mais preocupante quanto à anistia foi uma cláusula que cancelou processos penais em andamento de 8 anos ou mais nos quais o réu enfrentava menos de 10 anos de prisão. Esta medida acabou com uma série de casos de desfalques e fraudes sérias que tiveram origem nos dias de capitalismo de estilo "mafioso", como Havel descrevia, e que Klaus supervisionou como primiero-ministro nos anos 90.
Em última análise, esta medida poderá produzir o que será provavelmente o aspecto mais duradouro do legado de Klaus. Quase imediatamente depois que a anistia foi anunciada, prefeitos e diretores de escolas de todo o país começaram a retirar o retrato Klaus de suas paredes. Uma pesquisa recente do jornal tcheco Mlada fronta Dnes revelou que a maioria das escolas e prefeituras de todo o país decidiu abrir mão totalmente de pendurar o retrato oficial do presidente - uma tradição que remonta à fundação da Tchecoslováquia independente em 1918. Para um homem que apreciava tanto ser o centro das atenções, é difícil pensar num veredito mais punitivo.
*James Kirchick é membro da Fundação para a Defesa das Democracias e da Robert Bosch Stiftung. Ele foi redator da Radio Free Europe/Radio Libery, com sede em Praga.

Nenhum comentário: