Der Spiegel
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Yannis Behrakis/Reuters

Estudantes participam de protesto contra a Troika (formada pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) em frente ao palácio presidencial em Nicosia, no Chipre
Enquanto a crise do euro avança, as duras medidas de austeridade implementadas nos países-membros afetados estão provocando graves problemas de saúde em suas populações, revelou um estudo divulgado na semana passada. As doenças mentais, taxas de suicídio e epidemias estão em ascensão na região, enquanto o acesso à assistência médica diminuiu.
As rígidas medidas de austeridade trazidas pela crise do euro estão tendo efeitos catastróficos sobre a saúde dos habitantes dos países atingidos, informaram especialistas em saúde na quarta-feira passada.
As políticas de austeridade fiscal não apenas fracassaram em melhorar a situação econômica desses países como também impuseram uma grande tensão sobre seus sistemas de saúde, de acordo com uma análise sobre o setor europeu de assistência médica realizada pela revista médica The Lancet. Grandes cortes nos gastos públicos e nos serviços de saúde geraram uma drástica deterioração nos serviços de assistência médica disponíveis para os cidadãos desses países, informou o jornal, citando a explosão de epidemias e o aumento dos suicídios na região.
Além prejudicarem seriamente os orçamentos destinados aos serviços públicos de saúde, as profundas medidas de austeridade implementadas desde que a crise econômica começou, em 2008, aumentaram o desemprego e reduziram a renda das populações locais, causando recessão e levando as pessoas doentes a esperarem mais tempo antes de procurarem ajuda ou medicação, segundo o estudo.
Os países mais afetados pela situação foram Portugal, Espanha e Grécia – este último experimentou surtos de malária e HIV depois que seus programas de combate ao mosquito da malária e de trocas de seringas para usuários de drogas injetáveis foram cortados. Também foram registrados surtos do vírus do Nilo Ocidental e da dengue.
"As medidas de austeridade não resolveram os problemas econômicos e também criaram grandes problemas de saúde", disse à agência de notícias AP Martin McKee, professor de Saúde Pública Europeia da London School of Hygiene and Tropical Medicine (Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres), que liderou a pesquisa.
Demoraremos anos para compreender as consequências da crise do euro e das políticas trazidas por ela para o setor de saúde pública, mas alguns efeitos já são visíveis, segundo o estudo. Não só foi registrado um aumento na incidência de transtornos mentais na Grécia e na Espanha, mas o número de suicídios entre pessoas com menos de 65 anos aumentou na União Europeia (UE) como um todo desde 2007, "revertendo uma diminuição constante". Na Grécia, o Ministério da Saúde anunciou um salto de 40% no número de suicídios entre janeiro e maio de 2011 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Embora os cortes orçamentários tenham restringido o acesso à assistência médica e aumentado os custos para os pacientes desses três países, a Grécia também tem sofrido com a escassez de medicamentos, de equipes hospitalares e de suprimentos, de acordo com o estudo, encomendado em parte pelo Observatório Europeu dos Sistemas e Políticas de Saúde, parceiro da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Os autores do estudo também acusam funcionários da UE de não abordarem essas questões, e escreveram no estudo que "a maior parte dos especialistas da área de saúde pública têm permanecido em silêncio durante esta crise".
"Há um claro problema de negação em relação aos efeitos da crise sobre o sistema de saúde, mesmo que eles sejam bastante aparentes", disse à agência Reuters o pesquisador McKee, que liderou o estudo. Ele comparou a reação desses funcionários da UE à "tática de ofuscação" da indústria do tabaco. "A Comissão Europeia tem a obrigação, determinada por tratados, de se preocupar com os efeitos de todas as suas políticas sobre o setor de saúde, mas não produziu nenhuma avaliação de impacto relacionada aos efeitos das medidas de austeridade impostas pela troika".
A troika, composta pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), foi encarregada de socorrer as economias europeias em dificuldades – grupo que, mais recentemente, ganhou a companhia de Chipre – e de fiscalizar a implementação das medidas de austeridade que o estudo em questão culpa pela deterioração dos setores de saúde desses países.
Mas as coisas não precisam ser dessa maneira, sugere o estudo, citando a Islândia como história de sucesso. Embora o país tenha sido um dos primeiros a ser atingido pela crise financeira, ele "rejeitou a ortodoxia econômica que defendia a implantação de medidas de austeridade... e investiu em sua população que, segundo sugerem as evidências, sofreu muito poucas consequências adversas no que tange à saúde".
Tradutor: Cláudia Gonçalves
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