sexta-feira, 5 de abril de 2013

Investigação de paraísos fiscais revela suborno a altos funcionários na Venezuela
Esquema contava com financiador próximo a Hugo Chávez e teria usado dinheiro da petrolífera estatal
O Globo/El País

Investigações foram feitas pelo Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo
Foto: Reprodução
Investigações foram feitas pelo Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo Reprodução
MADRI — Quinze meses de árduas investigações feitas pelo Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ, na sigla em inglês) expõem as grandes fortunas escondidas em paraísos fiscais, com 12 mil movimentos de empresas e cerca de 13 mil pessoas envolvidas. O ICIJ teve acesso a cerca de 2,5 milhões de arquivos digitais, principalmente das Ilhas Virgens Britânicas, Cook e Cayman. O tamanho total dos arquivos é 160 vezes maior que divulgação feita pelo WikiLeaks em 2010, segundo a própria organização. E o ICIJ aponta em seu mapa de exposição das milhares de contas em paraísos fiscais três pontos no continente americano que escondiam fortunas: Canadá, Estados Unidos e Venezuela.
A gigantesca fraude entrou em colapso em 2011, causando prejuízos a centenas de milhões de investidores, incluindo um membro de uma das famílias mais ricas latino-americanas do Cone Sul. De acordo com relatório do ICIJ, com base em documentos judiciais, o esquema também devorou parte do fundo de pensões da petrolífera estatal PDVSA, a joia da coroa de Chávez, e de onde vieram muitos dos recursos que alimentaram a revolução do comandante.
Illarramendi foi declarado culpado em 2011 em acusações contra ele nos EUA, mas Bechara, que não foi responsabilizado pela justiça americana, insiste que, longe de participar da fraude de seu parceiro, foi apenas mais uma vítima.
Outro envolvido nos negócios de Illarramendi é Juan Montes, o Black, diretor sênior de investimentos da PDVSA que teria embolsado mais de U$ 30 milhões, frutos de propinas em troca de transações de títulos complexos entre o fundo de pensão da petrolífera e os fundos de investimentos de Illarramendi.
Estados Unidos e Canadá
No Canadá, Tony Merchant, advogado renomado e marido da senadora Pana Merchant, escondia cerca de U$ 2 milhões em um paraíso fiscal das Ilhas Cook, em 1998, enquanto estava preso em uma batalha fiscal com o ministério da Fazenda. Conhecido como o “Rei das Demandas Coletivas”, devido suas vitórias lucrativas em tribunais, Merchant transferia o dinheiro para o Pacífico e, em seguida, canalizava para uma conta no Caribe que teria sua esposa e três filhos como beneficiários.
A investigação de 15 meses de ICIJ teve a parceria exclusiva da rede de televisão CBC, do Canadá, e expôs cerca de 450 canadenses envolvidos em sonegação de impostos.
“Manter a correspondência ao mínimo”, diz a nota anexada à conta das Ilhas Cook de Merchante, que exigia comunicação com o advogado somente por meio de correio regular. “Nunca enviar um fax para o cliente ou terá um ataque cardíaco”, advertia.
Os documentos analisados pelos meios de comunicação de 35 países mostram como “o sigilo financeiro offshore se expandiu agressivamente em todo o mundo, permitindo que os ricos e os mais conectados pudessem sonegar impostos e, assim, alimentar a corrupção e os problemas econômicos nos países ricos e pobres, sem diferença”, assegura o informe.
No caso dos EUA, o jornal Washigton Post - contrapartida do ICIJ no projeto nos EUA - ainda não tornou públicas suas conclusões, mas já antecipou que mais de 30 americanos estão envolvidos em fraude, lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros.
Para analisar todas as informações disponibilizadas, o ICIJ conta com 86 jornalistas de 46 países e com a colaboração de meios como The Guardian e a BBC, o diário francês Le Monde e o americano The Washington Post. Quanto à Espanha, no decorrer da pesquisa aparece a baronesa Thyssen, “que usa uma empresa nas Ilhas Cook para comprar obras de arte em casas de leilões como Sotheby e Christie”.
Também foram mencionados Jean-Jacques Augier, que foi tesoureiro da campanha eleitoral do atual presidente francês, François Hollande, o presidente do Azerbaijão, Ilham Aliyev, e multimilionários indonésios com vínculos com o falecdo ditador Suharto. Figuram também na lista pessoas e empresas ligadas ao caso Magnitsky, escândalo de fraude fiscal que levou a uma proibição de adoção de crianças russas por famílias americanas e as relações tensas entre os dois países. Os detalhes da investigação serão publicados gradualmente até o próximo dia 15.

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