O Estado de S.Paulo
O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, continua tentando
reparar o estrago causado pela presidente Dilma Rousseff, na semana passada,
quando mais uma vez ela falou de forma impulsiva e desastrada sobre como deve
ser o combate à inflação. Não há tolerância à alta de preços nem o BC está
sujeito a pressões, disse Tombini. Ele tentou, mais uma vez, vender a imagem de
um governo comprometido com a estabilidade e ao mesmo tempo restabelecer a
crença na autonomia da política monetária. Será necessário muito mais que um
discurso desse tipo para convencer investidores e analistas independentes. Como
na semana anterior, quando teve de correr para cuidar dos danos causados por sua
chefe, Tombini prometeu agir com mais força contra a inflação, "se e quando
necessário".
Desta vez, a promessa foi um pouco menos vaga, pelo menos na aparência.
"Vamos ver a inflação de março, os núcleos de inflação, o nível de
disseminação", disse o presidente do BC em sua apresentação de terça-feira
perante a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. No próximo dia 10 o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará o IPCA de
março, uma semana antes da próxima reunião do Comitê de Política Monetária
(Copom). Um novo aumento de juros, segundo alguns analistas, poderá ocorrer
ainda em abril, se os dirigentes do BC julgarem especialmente preocupantes as
novas informações sobre os preços. Seria essa, no entanto, a mensagem
transmitida no encontro com os senadores?
Qualquer interpretação continua sendo uma aposta. Nos últimos meses,
dirigentes do BC mostraram algum desconforto diante da inflação e da
disseminação dos aumentos. Mudaram algumas palavras em sua comunicação com os
mercados, mas preferiram continuar esperando um arrefecimento das pressões
inflacionárias. Em seu pronunciamento no Senado, Tombini reiterou essa
esperança, ao mencionar a queda recente dos preços agrícolas no atacado.
Para pessoas menos tolerantes à inflação, ou sem os nervos de aço dos membros
do Copom, os últimos números já são bastante ruins para justificar uma elevação
dos juros. O primeiro dado é o IPCA-15, medido entre 15 de fevereiro e 14 de
março e considerado uma prévia do IPCA, usado como referência para a política
monetária. Esse indicador aumentou 0,49% em quatro semanas e 6,43% em 12 meses,
quase batendo no limite superior da margem de tolerância (6,5%). O índice de
difusão - parcela dos preços com aumento no mês - chegou a 74%. Não tem sentido,
portanto, falar de inflação de alimentos, ou de serviços, ou de qualquer outro
item, quando as altas de preços são tão espalhadas.
O IPC-S, indicador quadrissemanal atualizado a cada semana pela Fundação
Getúlio Vargas, chegou a 0,72% no fechamento de março, com alta de 6,16% em 12
meses. Em fevereiro a variação havia ficado em 0,33%, por causa da redução do
preço da eletricidade, mas esse efeito começou a esgotar-se e a tendência geral
da inflação voltou a predominar.
O IPC da Fipe surpreendeu, à primeira vista, ao apontar uma deflação de 0,17%
na cidade de São Paulo, em março, mas isso se explica principalmente pela
redução de 10,95% no custo da energia elétrica. A Fipe registra as variações de
preços pelo critério de caixa, isto é, no mês de desembolso efetivo.
Tombini reafirmou que espera um recuo da inflação no segundo semestre, depois
de um estouro do limite de 6,5% ainda na primeira metade do ano. Se o Copom
continuar esperando uma acomodação espontânea dos preços, reforçará a imagem de
tolerância. Mesmo um pequeno aumento de juros poderá ser insuficiente para mudar
a opinião dos críticos da política monetária. Não é fácil reconstruir uma imagem
danificada durante dois anos de submissão, aparente ou real, às ordens do
Palácio do Planalto. Além do mais, resta um dado irrefutável: a mera insistência
na meta de 4,5%, depois de tantos anos, com margem de tolerância de dois pontos,
já é um claro sinal de tolerância. Basta ver o desempenho de outras economias
latino-americanas, com crescimento maior que o do Brasil e inflação bem
menor.
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