quinta-feira, 4 de abril de 2013

Alemanha não cumpre a responsabilidade europeia, diz imprensa local
Der Spiegel
Markus Schreiber/AP

Silhueta da chanceler alemã, Angela Merkel, durante encontro em janeiro para discutir medidas na comunidade europeia
Silhueta da chanceler alemã, Angela Merkel, durante encontro em janeiro para discutir medidas na comunidade europeia
A enorme diferença nos índices de desemprego entre o norte estável e o sul da Europa em dificuldades não pode ser atribuída somente às políticas de austeridade impostas por Berlim, dizem comentaristas da mídia alemã. Mas a Alemanha permaneceu insensível a essas dificuldades por um tempo excessivo.
O desemprego na zona do euro atingiu o recorde de 12% em fevereiro, o índice mais alto desde o lançamento da moeda em 1999, segundo números divulgados na terça-feira. Ainda mais notáveis são as diferenças entre o norte e o sul do bloco, uma divisão que conta a história real da crise do euro.
Países como a Alemanha estão rumando para o pleno emprego, enquanto Grécia e Espanha têm índices de desemprego incrivelmente altos, de mais de 26%. Os jovens são os mais atingidos, com 58,4% dos gregos com menos de 25 anos sem trabalho. Na Espanha o índice é de 55,7%.
O impacto social será duradouro, segundo os comentaristas alemães, que apontam que os jovens estão pagando o preço mais alto pela crise, que causa sérios danos a suas perspectivas em longo prazo. Mas a maioria dos analistas acrescenta que é injusto culpar apenas a austeridade imposta pela Alemanha pelos problemas que o sul enfrenta. A má governança e a falta de reformas no mercado de trabalho em países individuais é culpada em parte, eles insistem.
"Der Tagesspiegel", de Berlim, escreve:
"O fato de que uma em cada oito pessoas na zona do euro está sem trabalho é bastante desanimador. Mas o fato de que um em cada dois jovens em países como Grécia ou Espanha estão desempregados não pode nos deixar insensíveis no norte. Não é culpa dos jovens que os diretores ou os políticos fizeram apostas desaconselháveis no passado. As reformas nos países meridionais poderão levá-los a emergir mais fortes economicamente em algum momento. Mas antes que isso aconteça um número excessivo de jovens terá experimentado o desemprego. Eles não podem obter experiência profissional, não têm reconhecimento social ou um mínimo de segurança para começar uma família, por exemplo. Danos duradouros poderão ser causados a seus currículos.
"Os motivos do alto desemprego entre os jovens são mais variados do que pode parecer. Países como Espanha e Itália têm leis trabalhistas que basicamente protegem as pessoas que estão empregadas há muito tempo. A consequência lógica é que os jovens são frequentemente os que se tornam redundantes quando os negócios vão mal. Por isso é fácil demais culpar as políticas de austeridade impostas por Berlim."
O "Suddeutsche Zeitung", de centro-esquerda, escreve:
"Competitividade é a palavra mágica. Somente quando for comparavelmente forte entre todos os países europeus os desequilíbrios econômicos serão corrigidos. Tudo isso parece simples na teoria. Mas na realidade os números refletem um brutal e doloroso processo de ajuste por sistemas políticos e econômicos profundamente diferentes. É esse o preço da unidade europeia?"
"Die Tageszeitung", de esquerda, escreve:
"Depende dos alemães. Eles decidirão se o euro sobreviverá. Essa é a clara mensagem que se pode ler nos números de desemprego europeus. Esses números apresentam uma Europa dividida em que o norte ruma para o pleno emprego enquanto o sul se torna cada vez mais pobre.
"No sul, gerações inteiras estão percebendo que não têm futuro. Isso terá repercussões políticas. Em todos os países meridionais, os partidos políticos estabelecidos são forças esgotadas ou viram seu apoio desmoronar. A Itália não será o último país membro do euro a se tornar ingovernável.
"Os eleitores no sul estão até se comportando racionalmente, usando as eleições como protesto e causando o caos. Seus governos não importam mais realmente porque já estão sendo efetivamente dirigidos pela Alemanha. É aqui que as autoridades ditam as condições que têm de ser cumpridas para se qualificar para os programas de socorro.
"Mas como mostram os últimos dados pan-europeus do desemprego, a Alemanha não está cumprindo sua responsabilidade. Em vez de ser ajudados, os países do sul estão sendo mergulhados na pobreza. Ainda pior é que os alemães estão totalmente insensíveis a isso até agora. Para eles, basta que não estejam sofrendo a crise na própria pele.
"Por mais bizarro que pareça, o oportunismo de Merkel é a última esperança que resta para os países meridionais. Se a crise do euro chegar à Alemanha, podemos ter certeza de que a chanceler, no verdadeiro estilo Merkel, vai efetuar uma meia-volta tática e lançar programas de estímulo para toda a Europa. Pode parecer cínico, mas seria uma boa notícia para a zona do euro se o desemprego alemão aumentasse."
O "Bild", de grande circulação, escreve:
"As estatísticas de desemprego na Europa são um recorde vergonhoso. A Europa foi o continente onde a economia florescia. Foi o continente da ciência. Um modelo para o mundo. Mas não existe fórmula de progresso. Ele tem de ser reinventado dia a dia. Precisa de impulso dos governos. Onde quer que falte esse impulso, os jovens não têm futuro. Eles são as vítimas de políticos que - como na Itália - destroem o país através de lutas internas ou - como os gregos - asfixiam o Estado com corrupção e péssima governança."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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