quinta-feira, 4 de abril de 2013

Opinião: acordo do Chipre prejudica interesses estratégicos da UE
Der Spiegel
Filip Singer/EFE

Pessoas manifestam em Nicósia, Chipre, durante discussão sobre pacote de medidas de austeridade
Pessoas manifestam em Nicósia, Chipre, durante discussão sobre pacote de medidas de austeridade
O pacote de resgate da zona do euro para o Chipre expôs grandes divisões dentro da Europa e trouxe de volta o espectro da crise do euro. Além de prejudicar a economia da nação-ilha, os erros na negociação do acordo por fim também atingirão os interesses estratégicos da UE.
Os investidores continuam se queimando quando apostam na saída de membros da zona do euro e, mais ainda, no fim da moeda comum da União Europeia. Os economistas continuam errando suas previsões. A simples razão é que a UE, seja na frente econômica ou em outras áreas, é um projeto político. Os eventos continuam a mostrar que, apesar das duras pressões de grande ameaça econômica, esse compromisso continua intacto.
Apesar da forma desajeitada pela qual os governos dos Estados membros lidam com a crise –com o caos em grande parte sendo explicado por razões institucionais em vez de incompetência- a UE e o euro vieram para ficar. A UE certamente tem grandes restruturações a fazer em termos da união bancária e fiscal e dificilmente parece bem no meio da crise. Mas ela vai prosseguir assim mesmo e, em uma perspectiva histórica mais ampla, continuará a dar aos seus cidadãos uma gama considerável de benefícios –como fez por décadas, particularmente desde o advento do mercado único, há 30 anos.
Ainda assim, a UE cometeu grandes erros no resgate do Chipre, ao ponto de quase fracassar completamente. Pior ainda, todo o assunto demonstrou sua incapacidade de agir estrategicamente quando os riscos são altos. As repercussões deste episódio que não foram capturadas pelas manchetes vão continuar a reverberar por anos. E é importante notar que a política responsável por trazer de volta o espectro da crise foi, não a economia.
Os cipriotas certamente são responsáveis por uma variedade de erros significativos. Por anos, o governo reforçou sua economia artificialmente com a entrada de capital ilícito, primariamente de empresários russos. Ele também permitiu que seus bancos ficassem grandes demais e não desenvolveu outros elementos padrões de uma economia Ocidental. Além disso, o recém-eleito presidente Nicos Anastasiades engajou-se em uma batalha inútil na tentativa fracassada de manter intacto o modelo empresarial do país.
Abordagem implacável
Mas será que essas ações justificam este acordo final implacável, que traz riscos para a própria UE? Aparentemente, não.
Muitos podem achar que a nova abordagem implacável dos ministros das finanças da UE para com o Chipre –em relação a outros resgates do euro- deveu-se aos cidadãos da Alemanha e de outros países estarem cheios de terem que lançar boias para salvar mais um pródigo Estado membro do Sul.
Uma explicação mais provável, porém, é a amargura que as elites políticas do Norte europeu ainda carregam do início dos anos 2000, quando a Grécia chantageou a UE para que aceitasse o Chipre no clube. A Grécia ameaçou vetar os aspirantes escandinavos caso o Chipre não entrasse. Uma dose saudável de sentimento contra a Rússia sem dúvida também teve seu papel.
Esses fatores primariamente políticos levaram a UE a cometer erros econômicos patentes –por exemplo, a sugestão de implementar uma taxa sobre depósitos, inclusive sobre contas garantidas com menos de $ 100.000 euros. A UE parecia não entender que os investidores veriam isso como um confisco. E ressuscitou uma crise do euro que muitos achavam que tinha terminado.
Foi um erro abjeto e completamente desnecessário. A UE estava tão decidida a colocar suas botas no pescoço cipriota que não pensou bem nos riscos de gerar corridas ao banco em torno da região, violando sua própria garantia de depósito bancário. Foi uma beleza de exemplo do fenômeno de pensamento de grupo.
Apesar de o acordo final ter preservado a garantia de depósito bancário, o gênio já tinha saído da garrafa. E uma vez que ele sai, não volta. Como resultado, a implementação da união bancária tornou-se muito mais difícil.
Um desafio à paz
Mas a coisa ainda piora. Em termos estratégicos, a UE prejudicou não apenas o Chipre e a si mesma, como também os interesses dos EUA e de outros aliados no Ocidente. A Europa levou o Chipre diretamente para os braços do governo russo. Isso não apenas prejudicou as perspectivas de seu próprio acordo, mas deu alavancagem a Moscou no processo.
Ainda mais importante, contudo, ao colocar Anastasiades entre a cruz do imposto bancário forçado e a caldeirinha de pedir ajuda a Moscou, a UE minou seriamente a posição do presidente internamente. Tudo isso precisamente quando o Ocidente estava prestes a colher os benefícios de finalmente ter um presidente pró-Ocidente no Chipre, crucialmente necessário para superar as relações azedadas com a Turquia, que continuam a minar as relações da Otan, da EU, da Otan com a UE e dos EUA com ambos.
Para terminar, com a eleição de Anastasiades, as perspectivas de um acordo de paz ao longo das linhas do Plano de Annan -para uma solução final da divisão cipriota de 40 anos– tinham melhorado, mas agora foram novamente reduzidas.
É um mito achar que Anastasiades sozinho foi responsável pela sugestão do imposto sobre poupanças abaixo de $ 100 mil euros. Os alemães, afinal, foram comparsas ativos em seu apoio, apesar das negativas subsequentes de Berlim. Mas também é um mito achar que só a Alemanha estava pressionando os cipriotas. Os holandeses, finlandeses e austríacos foram igualmente inclementes, assim como o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional (ou seja, os EUA tampouco podem escapar completamente da culpa). Cada um tem um grau de responsabilidade neste debacle.
Tradutor: Deborah Weinberg

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