A black friday fiscal
O Estado de S.Paulo
O Brasil "está muito bem nesta foto do primário", disse
ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, referindo-se ao resultado
previsto para as contas públicas. Detalhe: para conseguir o superávit
primário "elevado e sólido" prometido pelo ministro, o governo federal
terá de acumular R$ 39,6 bilhões de superávit primário em novembro e
dezembro. O esforço vai dar certo, garantiu o secretário do Tesouro,
Arno Augustin, ao apresentar o balanço de janeiro a outubro. Será uma
proeza e tanto chegar ao fim de dezembro com R$ 73 bilhões economizados
para o pagamento de juros da dívida pública. Em dez meses o governo
central só conseguiu um excedente primário de R$ 33,4 bilhões - 45,5% da
meta oficial de 2013. Essa meta, já bem menor que a original, foi
fixada graças à aplicação de vários descontos autoconcedidos. A black
friday fiscal começou no primeiro semestre e é difícil de dizer se os
abatimentos já terminaram.
As contas públicas vão bem e as agências de classificação de risco
sabem disso, assegurou o secretário, desmentindo avaliações conhecidas
no mercado e preocupações confessadas - quem diria? - pelo ministro da
Fazenda, uma semana antes, a políticos da base governista.
O magro resultado obtido pelo governo central tem sido muito pior que
o do ano anterior. Para fechar o balanço de 2012 a equipe econômica
recorreu a descontos, receitas extraordinárias e a outros procedimentos
incomuns, compondo um pacote celebrizado como contabilidade criativa. De
janeiro a outubro deste ano a receita foi 8,4% maior que a do ano
anterior, nos meses correspondentes, mas a despesa ficou 14% acima da
realizada no período anterior. O resultado primário de outubro, de R$
5,4 bilhões, foi o pior para o mês desde 2004, quando ficou em R$ 4,4
bilhões. O superávit acumulado em dez meses foi 48,2% inferior ao de
janeiro a outubro de 2012.
A deterioração das contas federais é explicável pela concessão de
benefícios tributários a alguns setores, pelo aumento de gastos e pela
tentativa de controlar os índices de inflação. Os benefícios servem para
estimular a economia, principalmente pelo incentivo ao consumo.
Essa política obviamente fracassou, porque o consumo cresceu, mas a
produção industrial continuou estagnada, e isso se reflete no baixo
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). A despesa, habitualmente
excessiva, tem sido ampliada pelas transferências de recursos ao Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com pouca
influência no nível geral de investimento e no fortalecimento da
economia, porque as prioridades têm sido mal escolhidas.
Finalmente, as tentativas de administrar os índices de inflação
levaram o governo a assumir despesas para compensar a contenção política
das tarifas de energia. Essa conta chegou a R$ 6,4 bilhões até outubro e
poderá atingir uns R$ 10 bilhões em 12 meses. Apesar disso e da
contenção das tarifas de transporte público e dos preços dos
combustíveis, a inflação está novamente acelerada e deve aproximar-se de
6% em 2013, repetindo a do ano passado. A gestão frouxa das contas
públicas, com excesso de gastos e estímulo ao consumo, contribui para a
alta de preços.
O conjunto do setor público também está longe da meta. O objetivo
inicial, de R$ 156 bilhões, foi reduzido para R$ 111 bilhões, mas
provavelmente nem esse será atingido. União, Estados, municípios e
estatais conseguiram até outubro um superávit primário de R$ 51,2
bilhões, por causa do desempenho dos governos estaduais e municipais. O
resultado até outubro de 2012 havia sido de R$ 88,2 bilhões.
Antes de conhecidos os novos números, a presidente Dilma Rousseff e o
ministro da Fazenda, Guido Mantega, já haviam decidido cuidar só do
objetivo do governo central (R$ 73 bilhões), deixando de
responsabilizar-se pelo alcance da meta geral. Para isso conseguiram
aprovação do Congresso. O resultado final, ainda incerto, será inflado
com receitas extraordinárias, como as prestações do Refis, o
refinanciamento de dívidas tributárias, e bônus de concessão de
infraestrutura. Seriedade na gestão das contas públicas é algo muito
diferente.
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