Ameaça ao Tesouro
O Estado de S.Paulo
Acuada por seus aliados, a presidente Dilma Rousseff se
rendeu e desistiu de vetar mais uma ameaça ao Tesouro Nacional - a
obrigação de custear as emendas individuais de parlamentares, em geral
paroquiais e eleitoreiras, incluídas no Orçamento-Geral da União (OGU).
Essa obrigação foi inscrita, com apoio do presidente da Câmara, deputado
Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), no projeto da Lei de Diretrizes
Orçamentárias (LDO). A presidente havia ameaçado barrar esse
dispositivo, mas, diante da reação da base, preferiu recuar. Essa
decisão foi informada ao presidente da Câmara pela ministra de Relações
Institucionais, Ideli Salvatti. Sem o recuo, os aliados prometiam
impedir a votação da proposta de Orçamento, o que forçaria o governo a
atravessar os primeiros meses do ano sem dinheiro para investir, uma
perspectiva temível em um ano de eleições.
Para começar, trata-se de uma situação quase surrealista. O Congresso
deveria ter votado a LDO até o fim de junho ou, de qualquer forma,
antes do recesso do meio do ano. A tramitação foi paralisada e houve
recesso em julho, embora disfarçado. A LDO fixa prioridades e as linhas
gerais da proposta do Orçamento anual. Mesmo sem essa base de
orientação, a proposta da lei orçamentária foi encaminhada ao Congresso
dentro do prazo, no fim de agosto.
Com isso se acrescentaram mais detalhes à paródia de surrealismo. Se
der tudo certo (pelos padrões brasilienses), a presidente poderá
examinar ao mesmo tempo os textos aprovados da LDO e do OGU.
Nenhuma explicação compatível com um mínimo de decência política foi
apresentada para justificar o atraso na votação das diretrizes. Apesar
disso, parlamentares cobram respeito em nome da instituição - como se a
instituição se confundisse com as piores práticas adotadas no Congresso -
e defendem sua avidez por verbas como se fosse a essência da
democracia.
Dependente e refém de uma base essencialmente fisiológica, a
presidente Dilma Rousseff já havia decidido aceitar a instituição do
orçamento impositivo por meio de emenda à Constituição. Incapaz de
resistir, o Executivo chegou a contribuir para a elaboração do projeto,
sugerindo um piso de despesas com saúde - 13,2% da receita corrente
líquida no primeiro ano, com elevação gradual até 15% no quinto ano.
A sugestão foi incluída no texto, no Senado, mas a Comissão de
Constituição e Justiça da Câmara dividiu a proposta, separando a criação
do orçamento impositivo da instituição de um piso de gastos com saúde. A
Frente Parlamentar da Saúde defende um mínimo de 18,7% da receita
corrente líquida no prazo de cinco anos.
O projeto do orçamento impositivo só deverá ser submetido à votação
final no próximo ano. Isso daria ao governo um argumento para vetar o
dispositivo da LDO sobre os gastos obrigatórios com as emendas, mas a
reação da base, especialmente do PMDB, fez a presidente recuar.
Começar mais um ano sem Orçamento aprovado seria duplamente ruim -
pela impossibilidade de investir e também pelo risco de rebaixamento da
nota de crédito do País. Diante dessa ameaça, o governo tem procurado
pelo menos encenar um compromisso com a seriedade na administração das
contas públicas, embora a precária situação fiscal, nesta altura, seja
indisfarçável. Não se pode deixar nenhuma dúvida quanto ao empenho do
governo em produzir um superávit primário maior, disse na quarta-feira o
ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Curiosamente, pela mesma razão parlamentares aliados decidiram adiar
para 2014 a votação da mudança da indexação e dos juros das dívidas de
Estados e municípios. Essa mudança, retroativa, abrirá um rombo na Lei
de Responsabilidade Fiscal. O atraso na votação em nada mudará esse
fato. Mas a conveniência de fingir seriedade parece ter motivado até
parlamentares da base.
Mesmo sem uma séria disposição de bem administrar o dinheiro público,
o governo poderia pelo menos dosar melhor a despesa, se continuasse
desobrigado de bancar as emendas. O recuo da presidente é mais um sinal
preocupante sobre a o futuro das contas públicas.
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