Dá para arrumar, mas...
Carlos Alberto Sardenberg - O Globo
Então
ficamos assim: o Brasil cresce 2% ao ano, com a inflação na casa dos 6%.
Esta é a matriz Dilma, se não houver nenhuma surpresa, positiva ou
negativa, em 2014, que deve sair mais ou menos como este ano.
Está bom ou ruim?
Depende
de quem se toma por modelo. Comparando com o padrão europeu, nossos 2%
de crescimento parecem bem amigáveis. Mas, comparando como se deve, o
Brasil está abaixo da média dos emergentes e abaixo da média da própria
América Latina.
Tudo somado e subtraído, pode-se dizer que algumas
ideias e práticas saíram errado. Por exemplo: estimular o consumo não
leva naturalmente ao aumento dos investimentos, como acreditavam (ainda
acreditam?) a economista Dilma e seus seguidores. Mais consumo sem
investimentos deu em inflação e déficit nas contas externas, pela via do
aumento das importações.
Também não prosperou a ideia de que os
juros acima de 10% decorriam basicamente da ganância dos bancos e dos
rentistas. Depois de ter colocado a taxa básica em 7,25% ao ano —
recorde de baixa — o governo Dilma precisou elevá-la de novo para 10% e
terá que subir mais um tanto no ano que vem, se quiser mesmo segurar a
inflação não na meta de 4,5%, mas abaixo do teto de 6,5%.
A
política econômica caiu assim em um momento bastante desconfortável.
Depois de ter alardeado a virtude de derrubar juros, volta ao pecado de
elevá-los. E mais ainda: entre os emergentes importantes, é o único que
está subindo juros nesse ritmo.
Outro desconforto: depois de ter
anunciado a disposição de colocar o dólar numa cotação mais favorável à
indústria, o governo está tomando medidas para segurar a alta da moeda
americana. Tudo porque o dólar caro pressiona a inflação.
Pois é,
se esse processo de valorização da moeda americana e, pois, de
desvalorização do real, tivesse se iniciado com uma inflação bem
baixinha, abaixo da meta, digamos, o governo até poderia deixar o dólar
deslizar e absorver o choque de preços — como fazem outros países. A
ideia de tolerar um pouco mais de inflação deu azar — nem deu
crescimento, nem juros baixos.
Mas tem algo que o governo Dilma
pode fazer já, com resultados imediatos na melhora das expectativas dos
investidores e na queda do risco Brasil. Ou seja, para ganhar confiança e
estimular investimentos.
Seria um choque nas contas públicas, bem
explícito, ao estilo do Lula do primeiro mandato. O ideal, para essa
alternativa, claro, seria a presidente Dilma colocar no comando da
economia um nome comprometido com a virtude fiscal e, pois, com a
realização de um superávit primário forte e crível, sem truques
contábeis.
O problema é que isso causaria outro desconforto
pessoal. A presidente Dilma, nas lições que deu ao mundo sobre a
administração da crise global, atacou duramente a prática do ajuste
fiscal. Como fazer o ajuste justo agora, no momento em que os outros
estão afrouxando seus cintos, depois de bons resultados do ajuste?
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