Economia ruim, campanha também
João Bosco Rabello - OESP
E a má notícia econômica, antecipada com índice mais ameno pela
presidente Dilma Rousseff, não surpreendeu: como é inerente à
matemática, a conta é exata e impermeável às manobras contábeis
exercidas fartamente pelo governo. Elas, porém, podem apenas maquiar e
adiar o inevitável, mas ao final exibirá sempre a nudez do discurso
protelatório.
O resultado apresentado hoje pelo IBGE aumenta a percepção externa – a
interna já está consolidada -, da piora gradativa da economia
brasileira e, segundo especialistas do mercado, amplia a possibilidade
de rebaixamento do país pelas agências de risco. Não é mais de se
esperar que, em ano eleitoral, o governo reverta esse cenário.
Porque é aí que reside a questão – o projeto de reeleição posto acima
do interesse público de gestão responsável. Esta deixa de ser quando o
Executivo sabe o que precisa mudar , mas adia as medidas necessárias à
correção de rumos por conveniência eleitoral. É exatamente o caso
brasileiro, dissimulado por uma discussão acadêmica que o governo
estimula, enquanto sustenta seus índices de aprovação nas estatísticas
que ainda mantêm baixo o desemprego.
De há muito aqui nesse espaço essa administração de números pelo
governo é dada como uma corrida contra o tempo, na esperança de que sua
consequência só se materialize após as eleições de outubro do ano que
vem. Com os índices divulgados hoje cedo pelo IBGE, esse tempo se
estreita mais e o cenário do quarto trimestre não deve atenuar esse
quadro, embora essa seja a nova promessa do ministro da Fazenda, Guido
Mantega.
A simultaneidade entre a divulgação do IBGE e o aumento controlado da
gasolina funcionam como uma síntese de causa e efeito entre essa gestão
política da economia e seus maus resultados. O governo
intervencionista, que pôs a Petrobrás a serviço do controle da inflação,
levou o país ao último lugar em crescimento, entre todos os demais.
“Somos o país que menos cresceu entre todos os países do mundo nesse terceiro trimestre – reconhece o ministro da Fazenda.
O cenário projeta o ano de 2014 como dos mais difíceis para o governo
e sugere que os efeitos políticos indesejados poderão se consumar antes
dos cálculos do Planalto. O contrário seria a vitória de um mecanismo
protelatório permanente no governo Dilma, cuja eleição já impunha a
necessidade de ajustes na economia no primeiro dia de governo, mas que
foi adiado para preservar sua popularidade.
A bola de neve aumenta, com novos adiamentos, aumentos subsidiados,
desonerações, e toda sorte de truques, agora para não comprometer a
reeleição. Os números ruins, porém, estão velozes , consolidando o
quadro de fuga de investidores e, mais que isso, explicando-a
didaticamente. O ue o governo tem para oferecer como atenuante são os
leilões de aeroportos e de Libra, cujos resultados concretos são
futuros.
A perspectiva de continuidade desse processo está consolidada nos
mercados interno e externo, em que pese o esforço do ex-ministro Delfim
Neto para conciliar suas críticas nesse sentido com o sentimento de
dever para com a estabilidade que transparece de seu otimismo
profissional. Apesar de seu empenho e de outros economistas, o “espírito
animal” que cunhou para ilustrar o ânimo empresarial, continua
adormecido.
A confiança do empreendedor não foi restabelecida como a do eleitor,
que andou amenizando a ira de junho com a presidente, devolvendo-lhe
parte do crédito de que dispunha antes das manifestações de rua. O
investidor trabalha com a realidade, é refratário a promessas, é frio e
calculista – a antítese do eleitor.
Como a resposta positiva deste último ao governo depende diretamente
dos benefícios gerados pelo primeiro, a equação política não fecha . No
momento, o governo trabalha com o capital político de sua reserva, já
escassa, da qual faz uso com a angústia de quem sabe dispor de pouco
tempo, menos que o necessário, para tentar garantir a vitória no
primeiro turno.
Meta para a qual o índice maior alcançado até agora, na fase de
resgate do patrimônio de votos confiscado em junho pelo eleitor, é
insuficiente. Menos de 45% chega a ser dramático para quem, no exercício
pleno dos poderes do cargo, tenta a reeleição.
A chance do governo hoje reside mais na incapacidade oposicionista de
ocupar o espaço de insatisfação dos 2/3 do eleitorado que pede
mudanças, do que na sua capacidade de reverter o que vai mal – da gestão
à credibilidade, duas coisas que andam juntas – para o mal ou para o
bem. Pioram juntas ou melhoram juntas, mas não andam separadas.
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