quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Evitando o culto a Mao, Pequim zela pelo seu legado político 
Brice Pedroletti - Le Monde  
Embora tenha sido oficialmente considerado responsável em 1981 pelo desastre que foi a Revolução Cultural, Mao Tsé-Tung, morto em 1976, nunca foi derrubado de seu pedestal na China. Seu retrato continua a dominar a fachada da porta da Paz Celestial. Mas o aniversário dos 120 anos de seu nascimento, no dia 26 de dezembro, tem alimentado polêmicas discretas sobre seu embaraçoso legado.
O dilema que o Partido Comunista Chinês (PCC) sempre enfrentou – de que Mao seria ao mesmo tempo Lenin e Stalin – continua a polarizar os chineses. Existem aqueles que o defendem com unhas e dentes em nome do patriotismo, e aqueles que o consideram fonte de todos os males da sociedade chinesa atual. Os intelectuais, que Mao se esforçou para disciplinar, o demonizam: nunca houve coveiro da inteligência e da cultura maior do que ele.
Uns tentam tirar proveito financeiro de seu culto. Outros abusam da ironia e do cinismo, chegando a lhe atribuir a paternidade do milagre econômico chinês. Shenzhen, o berço das reformas, inaugurou no início de dezembro uma estátua de Mao em ouro e jade. Na blogosfera, os internautas logo condenaram tais extravagâncias.
Na era Xi Jinping, o PCC parece estar fazendo um exercício de equilibrismo. Os sete membros do Comitê Permanente, o coletivo dirigente supremo do partido, entre eles Xi Jinping, foram na quinta-feira até o mausoléu de Mao, na Praça da Paz Celestial, e o reverenciaram três vezes.
Para o historiador Zhang Lifan, "os debates sobre os méritos e os defeitos de Mao estão mais intensos do que nunca". Segundo ele, exprimir uma opinião sobre Mao sempre tem um sentido: "Os maoístas estão tentando organizar o máximo possível de manifestações para exprimir o descontentamento deles. Para Xi Jinping, é um meio de estabelecer a legitimidade do partido". Desde o expurgo de Bo Xilai, ex-oficial do Partido em Chongqing condenado à prisão perpétua por corrupção, os neomaoístas têm se mantido discretos. As reformas econômicas anunciadas durante a terceira sessão plenária do PCC, em novembro, vão no sentido inverso do estatismo promovido por Bo.
Fang Jinggang, diretor da livraria Utopia, um dos celeiros do neomaoísmo, diz se tratar de uma "contrarrevolução": "Os intelectuais maoístas são extremamente marginalizados", ele lamenta. "E a classe capitalista dominante se esforça para dissimular as lutas de classe em andamento". Fang constata uma certa "frieza" nos meios oficiais em relação a Mao. Mas "o povo continua a celebrá-lo com carinho", ele se consola.
O jornal "Global Times", próximo dos meios nacionalistas e defensor do legado de Mao, enaltece continuamente a importância do aniversário, chegando a afirmar que quase 80% dos entrevistados em uma pesquisa acreditam que "as realizações de Mao superam seus erros". O jornal também se mantém na defensiva, acusando os "liberais" de "repudiarem totalmente o papel de Mao na história chinesa", e pleiteia a "coexistência de opiniões diferentes". O argumento dos defensores do Grande Timoneiro é que ele teria lançado as bases para a China das reformas.
Seus detratores observam que o crescimento econômico só decolou a partir do momento em que os sobreviventes dentre aqueles que foram alvo de seus expurgos voltaram ao poder, no final dos anos 1970. O resto foram só disputas de poder e destruições – os historiadores calculam que a fome contínua no Grande Salto Adiante causou entre 30 e 45 milhões de mortes.
Para o PCC, o importante é evitar que Mao lhe escape: "Eles querem a qualquer custo manter o poder de comemorar Mao", explica a jornalista e dissidente Gao Yu, em Pequim. "Eles desconfiam dos extremistas de esquerda que teriam tendência a reativar a Revolução Cultural, o que está fora de questão, ao mesmo tempo em que controlam e contêm as críticas a Mao nos meios liberais."
Para o PCC, continuar celebrando Mao também equivale a dizer que não se pode questionar o partido único: "O que constrange os oficiais é o fato de que as pessoas têm tido uma imagem cada vez mais negativa de Mao. Mas eles apreciam seu principal legado: ter permitido que os oficiais do partido tivessem todos os poderes", acredita Bao Tong, braço direito do ex-oficial Zhao Ziyang, expurgado em 1989.
O paradoxo é ainda mais evidente entre os filhos da nobreza vermelha, como Xi Jinping, o número um chinês. "Apesar dos tormentos e, em alguns casos, das torturas sofridas por seus pais durante o governo de Mao, eles são obrigados a reconhecer que o poder do partido foi estabelecido por Mao e que, sem ele, eles não estariam onde estão", diz Bao. No entanto, Xi Jinping cultiva a ambiguidade. Ele achou de bom tom se levantar contra qualquer "negativismo" sobre os trinta anos que precederam a era de Deng Xiaoping, ou seja, a China de Mao. Para desgosto dos meios liberais, ele reativou o conceito de linha de massa elaborada por Mao, bem como as sessões de autocrítica coletiva para os oficiais.
Esses posicionamentos e a visita simbólica ao mausoléu são vistos como sinais de apaziguamento da parte de Xi Jinping em relação aos maoístas e, de forma mais geral, aos príncipes vermelhos. Isso parece também favorecer o surgimento de outras referências histórias: em outubro, o primeiro secretário do partido comemorou o centenário do nascimento de seu próprio pai, Xi Zhongxun, que era vice-premiê antes de ser expurgado por Mao em 1962. Para alguns, o fato de Xi Jinping ter recorrido às ferramentas tradicionais de governança do partido remete mais a esse período de gestão coletiva do país do que a um culto ao maoísmo. Além disso, a biografia de Chen Duxiu, um comunista de primeira hora que se desentendeu com Mao, acaba de ser publicada.
Em novembro, Xi Jinping vistou Hunan sem passar por Shaoshan, lugar de nascimento de Mao. No mesmo mês, ele foi até o templo de Confúcio, em Shandong, onde convidou os chineses a reconstruírem uma moralidade a partir daquilo que fosse positivo nas crenças tradicionais. Mao não está pronto para ser derrubado na China. Mas sua influência poderá ser diluída entre as de outras figuras tutelares.

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