Reinaldo Azevedo - VEJA
Reportagem
do Jornal Nacional que acaba de ir ao ar, de autoria de Vladimir Netto,
indica que há algo de profundamente errado com o tal hotel St. Peter,
que resolveu “empregar” José Dirceu, com salário de R$ 20 mil. A dona da
empresa seria uma “empresa” do Panamá chamada “Truston International
Inc.”. Seu presidente é José Eugenio Silva Ritter, um panamenho pobre,
que não tem um gato para puxar pelo rabo. Ele admite ser sócio de
centenas de empresas porque é funcionário de uma empresa chamada “Morgan
y Morgan”. Leiam o que vai Portal G1. Volto mais tarde.
*
O Jornal Nacional localizou em uma área
pobre do Panamá o homem que seria o presidente da empresa que administra
o hotel Saint Peter, em Brasília, onde o ex-ministro José Dirceu,
condenado no julgamento do mensalão, pretende trabalhar.
Dirceu
está preso na Penitenciária da Papuda, onde cumpre pena em regime
semiaberto, que permite a ele trabalhar durante o dia e voltar à noite
para a prisão, para dormir. Ele recebeu uma oferta de trabalho do Saint
Peter, hotel no centro de Brasília, que fica em um prédio de 15 andares e
424 apartamentos. O Saint Peter pretende pagar ao ex-ministro R$ 20 mil
por mês para que ele exerça o cargo de gerente administrativo.
O homem
que preside a empresa administradora do hotel mora numa área pobre da
Cidade do Panamá, capital do Panamá, país da América Central, e trabalha
como auxiliar de escritório numa empresa de advocacia. Um dos sócios do
hotel, Paulo Masci de Abreu, é irmão de José Masci de Abreu, presidente
do PTN (Partido Trabalhista Nacional), que em 2010 apoiou a eleição da
presidente Dilma Rousseff. Mas ele é sócio minoritário. Tem uma cota, no
valor de R$ 1, como mostra o contrato social da empresa.
Todas as
outras cotas, que somam R$ 499.999,00, pertencem a uma empresa
estrangeira, a Truston International Inc, com sede na Cidade do Panamá. A
Truston está inscrita no registro público do Panamá e tem como
presidente um cidadão panamenho, José Eugenio Silva Ritter. O nome dele,
abreviado, aparece , junto a outros dois nomes: Marta de Saavedra,
tesoureira, e Dianeth Ospino, secretária. José Eugênio Silva Ritter
também aparece ligado a mais de mil empresas em um site criado por um
ativista anticorrupção. O procurador da Truston no Brasil, como mostra o
contrato do hotel Saint Peter, é Raul de Abreu, filho de Paulo Masci de
Abreu.
Por
telefone, Paulo de Abreu e o advogado de Raul de Abreu disseram que José
Eugenio Silva Ritter é um empresário estrangeiro apresentado por meio
de um advogado. Também afirmaram que a empresa presta contas a José
Eugenio regularmente. O repórter Vladimir Netto, da TV Globo, travou o
seguinte diálogo por telefone com Paulo de Abreu:
- Vladimir Netto: Quem é o seu sócio majoritário?
- Paulo de Abreu: É a Truston. É uma empresa que investe em hotéis.
- Vladimir Netto: Quem é o dono da Ttruston?
- Paulo de Abreu: Ah, tem vários acionistas, né? Precisa ver, até porque as ações, como são vendidas constantemente, né?
- Vladimir Netto: Quem é José Eugenio Silva Ritter?
- Paulo de Abreu: É o presidente.
- Advogado: É o presidente da empresa.
- Vladimir Netto: mas vocês o conhecem?
- Paulo de Abreu: Uma vez nós já tivemos… em reunião.
- Vladimir Netto: Ele veio ao Brasil, dr. Paulo?
- Paulo de Abreu: não, eu estive lá em Miami.
- Vladimir Netto: Isso foi quando? Foi quando os senhores resolveram fazer uma sociedade pra administrar o Saint Peter?
- Paulo de Abreu: É, quando formalizamos a
parceria. De lá pra cá, a gente manda as informações pra lá e ele se dá
por satisfeito, enfim, ou pergunta alguma coisa, mas houve essa reunião
em miami quando da formalização do entendimento.
O Jornal
Nacional foi ao Panamá para tentar entrevistar o presidente da empresa
que administra o hotel Saint Peter. Jose Eugenio Silva Ritter mora em
uma rua em um bairro pobre na periferia da cidade do panamá. Quando o
repórter chegou, ele estava lavando o carro na porta de casa. Ritter
disse que trabalha num escritório de advocacia, o Morgan y Morgan, há
mais de 30 anos. E reconheceu que aparece mesmo como sócio de muitas
empresas mundo afora. “Trabalho na Morgan y Morgan e eles se dedicam a
isso”, afirmou.
Ele disse
que não lembra da Truston International Inc, que administra o hotel
Saint Peter, empresa da qual ele é o presidente. “Eu sequer sei se é o
nome de uma sociedade de várias pessoas. Você, por favor, vá lá na
Morgan y Morgan, lá com um advogado e tudo, aí eu posso te dar a
informação que você precisa. Se me autorizam, se posso falar, te dar as
respostas, porque pode botar em perigo meu emprego”, afirmou.
No órgão
que regulamenta e fiscaliza o mercado de capitais dos Estados Unidos
consta que José Eugenio Silva Ritter é auxiliar de escritório do Morgan y
Morgan. A Morgan y Morgan fica em um prédio no centro financeiro da
Cidade do Panamá. É uma firma que ajuda na fundação e administração de
empresas internacionais com sede no Panamá. A legislação do país permite
que ações de companhias sejam transferidas de um empresário para outro
sem que seja necessário informar as autoridades. Isso faz com que seja
muito difícil saber quem é o verdadeiro dono de empresas como a Truston
International Inc, proprietária do hotel Saint Peter.
“Esses
países percebem como uma estratégia econômica de trazer recursos para
aquele país, justamente flexibilizar as regras sobre tributação, sobre
identificação. Então, esses países acabam diminuindo essas exigências de
identificação de documentação pra atrair capitais, pra atrair ativos
pra fomentar a propria riqueza do país”, afirmou Pierpaolo Bottini,
professor de direito penal da Universidade de São Paulo (USP).
O Jornal
Nacional procurou Morgan y Morgan para perguntar sobre a propriedade da
administradora do hotel Saint Peter, mas ninguém quis atender. A
advogada de Paulo Masci de Abreu, Rosane Ribeiro, revelou que a sócia
majoritária da Truston International é a nora dele, a empresária lara
Severino Vargas. E que a nora vendeu a Paulo de Abreu o controle
acionário do hotel Saint Peter. A advogada lembrou também que o cliente é
dono de 60% do prédio onde funciona o hotel Saint Peter. Os outros 40%,
segundo a advogada, pertencem ao empresário Paulo Naya.
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