A audácia de Karzai
Os EUA transformaram o líder afegão no \"aliado\" insolente e interesseiro que ele se tornou
FOUAD, AJAMI - O Estado de S.Paulo
"Queremos que os americanos respeitem nossa soberania e
sejam um parceiro honesto. E tragam muito dinheiro." Assim declarou o
presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, durante reunião de líderes
tribais afegãos loya jirga (ou Grande Conselho). É preciso admitir:
nenhum regime já mostrou tão pública desconsideração a seu protetor. Em
seus envolvimentos no chamado Terceiro Mundo, os Estados Unidos tiveram o
infortúnio de conviver com governantes pouco palatáveis - Fulgêncio
Batista, de Cuba, Anastasio Somoza, da Nicarágua, Ngo Dinh Diem, do
Vietnã do Sul, Ferdinand Marcos, das Filipinas, e assim por diante.
Durante a Guerra Fria, os EUA ficaram num impasse: era o comunismo ou
esses ditadores. Nenhum deles, ouso dizer, falou com tão aberto
desprezo dos líderes americanos como fez Karzai.
Se a expedição ao Hindu Kush pretendia ensinar aos afegãos as graças
redentoras da democracia, tem sido o orgulho de Karzai ensinar aos
americanos os modos nas montanhas afegãs. Eis o que disse Karzai, em
2009, sobre a gorjeta que os iranianos deram a seu regime: "Eles nos dão
malas de dinheiro. Somos gratos aos iranianos por isso."
Minha declaração preferida de Karzai foi feita durante uma loya jirga
em novembro de 2011. "O leão não gosta se um forasteiro se intromete em
sua casa. O leão não gosta se um estrangeiro entra em sua casa. O leão
não quer que seus filhos sejam roubados por alguém durante a noite. O
leão não deixará que isso aconteça. Eles não deveriam interferir na casa
do leão: tratem de guardar os quatro lados da floresta." Esse leão
afegão é uma fera peculiar. Ele depende de outras criaturas para matar
suas vítimas.
Os EUA transformaram Karzai no "aliado" insolente que ele se tornou.
Fizeram aumentar o aluguel das estratégicas montanhas afegãs. Dois
presidentes americanos declararam inúmeras vezes a importância do
Afeganistão para a "guerra ao terror", primeiro George W. Bush, depois
Barack Obama. Este último aumentou a aposta. Ele declarou que a guerra
afegã era a boa e necessária, a guerra quintessencial do 11 de Setembro,
e fez dessa guerra uma parte fundamental de seu legado.
A loya jirga que Karzai reuniu recentemente surpreendeu o envaidecido
senhor da guerra ao aprovar um acordo com os americanos. Ele permaneceu
impassível. Disse que deixaria a aprovação de um pacto de segurança a
seu sucessor.
O espetáculo de autoridades americanas correndo atrás de Karzai é
degradante, para dizer o mínimo. Estamos pedindo a ele o privilégio de
proteger seu país nos próximos anos.
Sua truculência não é nenhum mistério. "O presidente Karzai não é um
parceiro estratégico adequado", escreveu Karl Eikenberry, embaixador
americano no Afeganistão, em 2009. "Ele e boa parte de seu círculo não
querem que os EUA saiam e estão bastante contentes de nos ver investir
mais. Eles imaginam que nós cobiçamos seu território para uma guerra
interminável ao terror e bases militares para serem usadas contra
potências nas imediações." Esta conclusão severa tem sido ecoada nos
últimos dias pelo ex-chanceler Abdullah Abdullah, um candidato às
eleições presidenciais do próximo ano.
"Isso é perigoso", ele disse. "Ele acha que os americanos estão
ansiosos para ficar no Afeganistão a qualquer preço. Não é verdade. Ele
acha que este é seu duelo pessoal com o governo americano. Não é. É o
futuro do Afeganistão que está em jogo."
O ardor que os EUA têm mostrado em fechar este acordo com Karzai
contrasta com sua ansiedade para sair do Iraque em 2011. Hoje, seria
possível dizer que o Iraque tem uma importância estratégia infinitamente
maior que o Afeganistão, e a presença americana no Iraque teria servido
aos interesses americanos naquele Oriente Médio mais amplo.
Mas o Iraque não foi a "guerra boa". Nós não regateamos muito em
Bagdá. Fizemos aos iraquianos uma oferta para eles recusarem; uma força
simbólica que mal conseguiria se defender, quanto mais ajudar os
iraquianos.
Sem debate nacional, com o Congresso atolado em disputas, Obama
propõe um envolvimento americano no Afeganistão até 2024. A esperança de
que esse envolvimento produza um governo decente capaz de derrotar o
Taleban é tênue. Devemos abandonar a ilusão de que as forças que
treinamos lutarão, que um regime afegão viciado em doações estrangeiras
se consolidará quando isso for realmente necessário.
Quando realmente empacotarmos nossos equipamentos, a verdade daquele
país se imporá. Os chefes tribais e as aves de rapina pegarão o que
puderem e deixarão o lugar à ruína.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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