Reinaldo Azevedo - VEJA
O senador
Zezé Perrella (PDT-MG), cuja família é dona de um helicóptero que foi
flagrado com quase meia tonelada de cocaína, discursou nesta terça no
Senado. Ele se disse “vítima de injustiça”. Qual “injustiça”? Até agora,
que eu saiba, ele e o filho, o deputado estadual Gustavo Perrella
(SDD-MG), estão sendo considerados apenas testemunhas. Gustavo, a irmã e
um primo são os donos da empresa proprietária do aparelho.
A questão
da cocaína é gravíssima, sim! Estupidamente grave. Mas o que há de mais
ameno nessa história já é uma vergonha. Deveria bastar para que pai e
filho pegassem o boné e fossem pra casa. Já que ele diz que a família na
precisa da política, parece-me evidente que a política não precisa
deles.
O piloto
que foi preso transportando a cocaína era “assessor parlamentar” do
Perrelinha na Assembleia de Minas. Tenham paciência! O custo do
combustível da aeronave era fraternalmente divido entre pai e filho — ou
melhor, entre a Assembleia Legislativa de Minas e o Senado; nós
pagávamos, em suma, para que os Perrellas (ou quem mais entrasse naquele
helicóptero) saíssem voando por aí. O aparelho estava especialmente
adaptado para carregar pequenas cargas. Suponho que não fosse para levar
soja, boi ou fertilizantes. Os Perrellas não precisam da política?
Então a política não precisa dos Perrellas.
Afirmou o senador:
“Meu filho usou o ano inteiro R$
14 mil com o abastecimento de aeronave. Poderia usar R$ 20 mil por mês.
Se está errado, que se mude o regimento. Quando eu vejo tudo isso, dá
vontade de largar a política. É muito fácil jogar pedra. Nunca
precisamos disso, de R$ 14 mil por mês”.
Pois que
se faça a sua vontade, senador! Não hesite! Pule fora! A política é
mesmo um lugar cruel demais para almas sensíveis e probas.
Cocaína
Atenção, leitores! Peço muita prudência
nos comentários. Nem acusações nem ilações. Só fatos. O piloto,
“funcionário” da Assembleia, avisou o patrão, o Perrellinha, que iria
fazer um “bico”, um frete. O chefe disse “ok”. Não deveria ter dito.
Como deixou claro a Anac, isso é ilegal. Aeronaves privadas, de pessoas
ou empresas (como é o caso), não podem ter fins comerciais. É espantoso
que os Perrellas não soubessem disso.
Quanto ao resto da história, a mirabolância não bate com os fatos e com a matemática. Na segunda, escrevi aqui um post,
felizmente endossado por especialistas demonstrando por que a história
contada pelo piloto à Polícia Federal tem cara de ser mais falsa do que
talco Pom Pom disfarçado de cocaína. Reproduzo trecho (para quem não
leu). Volto depois. Percebam que eu não entendo nada de helicóptero, mas
sei fazer conta (em verde)
*
Este que escreve não entraria num
helicóptero nem debaixo de porrete. Se é pra voar, nada menos do que um
jato — um amigo piloto lamenta a minha ignorância e a minha descrença
nas leis da física; essa descrença só existe a alguns mil metros do
solo, deixo claro… Muito bem! A história despertou a minha curiosidade.
O
helicóptero da Família Perrella é um Robinson 66 (R-66). Não que eu
esteja a fim de comprar um, mas fiz a lição de casa para vocês. É dos
mais baratinhos. Por US$ 970 mil, vocês podem comprar um. Quem entende
da área diz ser uma aeronave ideal para transportar pequenas cargas.
Entendo.
Em seu
depoimento, o piloto afirmou que o aparelho já saiu de Avaré, em São
Paulo, carregando a droga. Fez uma viagem relativamente curta até o
Campo de Marte. Dali seguiu para Divinópolis, em Minas, região onde fica
a sede da empresa dos Perrella. Da cidade mineira, rumou para a fazenda
no Espírito Santo, onde foi surpreendido pela Polícia Federal. Vejam o
mapinha (do Jornal Nacional).
O peso
máximo para um R-66 sair do chão é 1.225 quilos — ocorre que só a
aeronave pesa 581 quilos. Sobram 644. Desse total, devem-se descontar
224 kg do combustível. Sobraram 420. Notem: só a carga de cocaína (445
kg) já ultrapassou esse limite. Há ainda os dois pilotos — calculemos
140 quilos. A conta não fecha. Restaria uma possibilidade: o helicóptero
não estar com a carga completa de combustível. Quanto teria de ser?
Vamos pensar:
peso da aeronave – 581 kg
peso dos pilotos – 140 kg
peso da cocaína – 445 kg
soma – 1.166
Sobraram
apenas 59 quilos para o combustível. Com 224 kg, segundo pesquisei, a
autonomia do R-66 é de três horas, voando a 220 km/h. Assim, pode-se
percorrer, chegando ao limite da pane seca (os prudentes não ousam
tanto) 666 km. Huuummm… Regra de três: se, com 225 kg de combustível,
pode-se voar 660 km, com 59 kg, voa-se, no máximo, 173,8 km.
Pois é…
Vejam lá a rota do helicóptero. Entre Avaré e o Campo de Marte (também
fui pesquisar), em linha reta, já são 265,8 km. Entre o Campo de Marte e
Divinópolis, há 513 km — chega-se bem perto da autonomia do aparelho se
tivesse saído com o tanque cheio. De Divinópolis até a fazenda no
Espírito Santo, sempre em linha resta, há 393 km. Nada nessa conta
fecha.
A minha
hipótese é que o piloto pode não estar contando toda a verdade. O mais
provável é que esse aparelho tenha sido abastecido em vários pontos ao
longo da trajetória. E intuo que a droga entrou no helicóptero foi em
Divinópolis mesmo, não em Avaré.
Encerro
Paulinho da Força, presidente do
Solidariedade, se negou a afastar Gustavo Perrella do partido. Em nota,
disse que que evitar prejulgamento e coisa e tal. Pois é… Num país
normal, o uso de dinheiro público para abastecer o helicóptero que
pertence a uma empresa e a contratação de um piloto como assessor
parlamentar já liquidariam uma carreira política — especialmente quando o
tal helicóptero é adaptado para carregar cargas, como é o dos Perrella.
A propósito: qual é a carga habitual?
Essa história não fecha, quer nos seus aspectos, digamos, narrativos, quer na matemática.
Retomo
Isso incrimina os Perrellas? Não. Mas o
conjunto dos dados evidencia que, até agora, muito pouco se sabe sobre o
que realmente aconteceu.
Por mim, o
senador cumpriria a sua vontade e deixaria esse negócio de política pra
lá. Chega de tanto mártir na política, né,m Senhor Perrella!?


Nenhum comentário:
Postar um comentário