sexta-feira, 11 de maio de 2012

A EUROPA E O EURO

Europa, combatendo incêndio com fogo
Ernesto Lozardo - OESP
O diagnóstico sobre a crise da zona do euro está equivocado e, portanto, as medidas econômicas de salvamento do projeto de moeda única estão desalinhadas com as necessidades da região. A alegação de que a crise é de natureza soberana é um erro, pois, excluindo-se a Alemanha, os demais países da zona do euro aumentaram suas dívidas somente após a crise financeira dos Estados Unidos.
Em 2007, a média da dívida soberana dos países do euro encontrava-se em torno de 56% do produto interno bruto (PIB). A dívida da França, Alemanha, Irlanda, Holanda, Espanha e Portugal estava abaixo do limite do endividamento proposto no Tratado de Maastricht, ou seja, 60% do PIB. A Itália e a Grécia eram os únicos países a terem dívidas elevadas, de 87% e de 105%, respectivamente. Em 2010, a média da dívida soberana desses países saltou para 77% do PIB, tornando as dívidas da Grécia (143%), da Itália (100%), de Portugal (89%) e da Irlanda (78%) insustentáveis.
Países como Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e Grécia, considerados menos competitivos, necessitavam de um período de 20 anos para realizar ajustes e reformas fiscais, tributárias, trabalhistas e previdenciárias e, desse modo, se adequarem ao projeto de moeda única. No entanto, a crise financeira global dos Estados Unidos atropelou o processo de consolidação da zona do euro. Três anos já se passaram e nem todas as dificuldades econômicas e sociais da região do euro foram equacionadas, ao contrário, além da crescente dívida soberana, a dívida privada ali pode ser o calcanhar de aquiles à recuperação do crescimento e do emprego.
Pouca atenção tem sido dada à maior dívida da região: a privada. Esta inclui a dívida das famílias e a das empresas não financeiras. Em 2007, ela representou 174% do PIB e, após a crise financeira dos Estados Unidos, em 2010, passou para 194% do PIB. A dívida privada da Itália equivalia a 122% do PIB e a da Grécia, a 105% - menores que a da Alemanha, de 131%. O fato é que, no período pós-crise financeira norte-americana, o acréscimo nas dívidas soberanas e privadas foi análogo: 20 pontos porcentuais.
Nos dias atuais, o nível médio das dívidas pública e privada somadas ultrapassa 300% do PIB da região. Esse montante é o principal limitador do crescimento do consumo, da poupança e dos investimentos futuros na zona do euro.
Há um erro crasso nas medidas de ajuste impostas aos países periféricos: os alemães exigem que os países em crise se reorganizem à imagem e semelhança da Alemanha. Os programas de austeridade fiscal equivalem ao ato de combater o incêndio com mais fogo. Os ajustes fiscais pedidos representarão empobrecimento rápido da região com aumento do desemprego, crescente movimento migratório para países fora da região, perda contínua de produtividade e crises políticas imprevisíveis.
No curto prazo, pode-se amenizar esse cenário desfavorável, caso se adotem as seguintes medidas para os países periféricos: estabelecer um plano de saída do euro; efetuar a redução compulsória da dívida soberana e renegociação da dívida privada com a recapitalização ainda maior dos bancos com recursos do Banco Central Europeu (BCE); os países que deixarem o euro deverão retomar a sua moeda soberana, desvalorizá-la e ter o euro como moeda de referência; e reorganizar a atividade econômica com o apoio das instituições internacionais e regionais por meio de investimentos estruturais.
É fundamental que a Europa reconheça que o projeto de moeda única não é extensivo a todas as nações europeias. No médio e no longo prazos, deveria haver a centralização política e orçamentária dos países-membros, que inclui o processo de transferências fiscais intrarregionais, uniformização tributária e sistema bancário unificado e competitivo. Isso exige coesão política e fiscal.
Os resultados das eleições recentes na região indicam o crescente desejo das sociedades de abandonarem o projeto euro em busca da soberania monetária e fiscal.
*PROFESSOR DE ECONOMIA DA EAESP-FGV, É AUTOR DO LIVRO 'GLOBALIZAÇÃO: A , CERTEZA IMPREVISÍVEL DAS NAÇÕES', (2ª EDIÇÃO)

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