Acordo nuclear melhora imagem da Europa no exterior
Lucía Abellán - El Pais
Atta Kenare/AFP
25.nov.2013
- Iranianos observam jornais no chão ao lado de uma banca em Teerã. A
maior parte dos jornais iranianos saudou o acordo histórico sobre a
unidade nuclear do Irã
Istambul, maio de
2013. A alta representante para Política Externa europeia, Catherine
Ashton, se reúne em particular com o chefe da negociação iraniano, Said
Khalili, para falar do desarmamento nuclear. A era do polêmico Mahmoud
Ahmadinejad à frente do Irã chega ao fim e, depois das atormentadas
relações que manteve com o Ocidente, poucos confiam em que os encontros
prosperem.
Entre esses poucos está Ashton, que percorreu meio
mundo nos últimos três anos (Genebra, Istambul, Bagdá, Moscou e Almaty,
no Cazaquistão) para conseguir seu maior êxito diplomático: que o Irã
congele a ameaça nuclear. O episódio dá uma virada na imagem externa da
UE, muito necessitada de façanhas que definam seu papel diante do mundo.Foram 11 rodadas intensas de negociação até chegar à definitiva, que culminou em Genebra com o primeiro compromisso firme do Irã de se afastar do caminho que leva à bomba nuclear. A diplomacia europeia, tão diluída até agora, conseguiu com esse avanço transcender sua área natural de influência para propiciar um pacto que muda o equilíbrio de forças no Oriente Médio.
É verdade que o acordo nunca teria ocorrido sem dois elementos fundamentais: a substituição no governo iraniano e a vontade inequívoca de Barack Obama. Mas, para aproximar posições e convencer todas as partes sobre as vantagens de um texto muito ambíguo, foi fundamental a intervenção da alta representante comunitária, como afirmam as fontes consultadas. Como líder desses contatos, Ashton soube do canal secreto que Irã e EUA mantiveram durante anos para cimentar um compromisso.
O papel de Ashton foi crucial ao tecer uma rede de confiança e aglutinar em um só rosto as visões - às vezes muito distantes - das seis potências que se sentavam à mesa com Teerã: EUA, França, Reino Unido, Rússia e China (os membros do Conselho de Segurança da ONU), mais a Alemanha.
Essa capacidade mediadora também foi chave nos outros dois méritos que se podem atribuir a Ashton no cenário internacional: a reconciliação entre Sérvia e Kosovo e o diálogo no Egito, embora neste último os resultados sejam decepcionantes. "Não conseguiu dissuadir os militares, mas foi a única dirigente ocidental que dialogou com a Irmandade Muçulmana [e com o próprio presidente deposto, Mohamed Morsi], que por sua vez havia recusado reunir-se com John Kerry [chefe da diplomacia americana]", salienta Rosa Balfour, do European Policy Centre.
Paradoxalmente, o maior êxito exterior da UE coincidiu no tempo com um de seus mais sonoros fracassos: o afastamento da Ucrânia da órbita comunitária para se refugiar na Rússia, seu antigo dominador. A diplomacia europeia menosprezou a chantagem que Moscou poderia exercer diante da antiga república soviética e deu por conquistada a vontade ucraniana de se associar ao clube comunitário.
Além do tropeço com os vizinhos do leste, o serviço diplomático da UE, em pleno funcionamento há apenas três anos, falhou na hora de desenhar uma estratégia clara da Europa diante do mundo. Tampouco conseguiu defender seus interesses comuns frente aos EUA, como demonstra a suavidade que, com honrosas exceções, os dirigentes comunitários aplicaram ao obscuro episódio da espionagem.
Apesar dos indubitáveis avanços no Irã, resta um longo caminho até transformar esse acordo preliminar em uma vitória definitiva. A britânica continuará pilotando o processo nos próximos seis meses, nos quais o pacto deverá se concretizar. Justamente a tempo para avaliá-lo nas eleições europeias de maio de 2014. Fontes diplomáticas veem na alta representante o desejo de se candidatar a outro alto cargo. Não lhe servirão seus escassos dotes públicos. "Estou muito concentrada no trabalho e não tanto na visibilidade do trabalho", costuma justificar-se diante de seus colaboradores.
Ashton também acredita que parte do êxito de sua atuação reside nessa discrição que aplica. Mas a fuga dos refletores lhe valeu, até o episódio do Irã, uma exígua reputação entre aqueles que representa: os europeus.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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