Lydia Polgreen - NYT
A julgar pelos tributos que brotaram em todo o mundo a Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul e um símbolo universal de paz e da reconciliação, o líder pode parecer um ursinho de pelúcia.
O herói africano
Prêmio Nobel da Paz por sua luta contra a violência racial na África do
Sul, Nelson Mandela - ou Madiba, como é chamado na sua terra natal -
passou 27 anos preso e se tornou o primeiro presidente negro daquele
país.
Ele perdoou o governo que o prendeu por 27 anos no auge de sua vida,
saindo da prisão sem amargura para fazer as pazes com os seus
opressores. Ele matou com bondade o apartheid, o sistema cruel de
segregação racial que reinou na África do Sul por quase meio século.
Pelo menos, a história é essa.
"Mandela era um homem de paz, mas também foi um combatente", disse Philippe Itizo, enfermeiro da República Democrática do Congo que trabalha na África do Sul. "Ele sabia que palavras somente não conseguiriam trazer a paz diante de um terrível inimigo. É preciso ter força".
Nos dias desde a morte de Mandela aos 95 anos, no dia 5 de dezembro, milhares de pessoas de luto se reuniram nesta pequena cidade na região central da província de KwaZulu-Natal, colocando flores, acendendo velas e oferecendo orações em uma escultura moderna, que marca o local onde, em 5 de agosto de 1962, Mandela foi capturado pela polícia do apartheid.
"As pessoas devem se lembrar de Mandela o guerreiro", disse Aaron Hlongwane, um faz-tudo de 49 anos de idade, que trabalha no memorial.
Cinquenta eixos verticais de aço, de 6 a 9 metros de altura, formam a escultura, presa à terra. Visitantes se aproximam da escultura por um caminho inclinado. De repente, a 30 metros de distância, os eixos se alinham e criam uma imagem do rosto de Mandela, olhando desafiadoramente a oeste sobre as colinas.
A história da decisão de Mandela de deixar de lado a amargura e fazer as pazes com seus captores brancos é bem conhecida. Mas vários anos antes de ser preso, Mandela ajudou a fundar o braço armado do Congresso Nacional Africano, chamado Umkhonto we Sizwe ou Lança da Nação.
Depois de anos de resistência passiva ao apartheid, Mandela e alguns de seus companheiros mais radicais do CNA decidiram que a não-violência não iria funcionar contra um inimigo tão implacável.
"Se a reação do governo é esmagar à força nossas manifestações não-violentas, temos que reconsiderar seriamente nossas táticas", disse Mandela a um entrevistador de televisão em 1961. "Na minha cabeça, estamos fechando um capítulo nesta questão de política de não-violência".
Os visitantes ao memorial aqui concordaram.
"Você não pode atirar marshmallows contra pessoas que jogam lanças", disse Levien Yengopal, um magistrado que trouxe sua família de férias para ver a escultura. "Ele foi forçado à luta armada".
O grupo armado envolveu-se principalmente na sabotagem de propriedades do governo, embora a Comissão da Verdade e Reconciliação tenha descoberto sua participação em atentados e outros ataques durante os anos 70 e 80, enquanto Mandela estava na prisão, que resultaram em mortes e ferimentos de civis.
O grupo rebelde, conhecido como MK, rapidamente se tornou uma peça nas batalhas da Guerra Fria africana. Com o apoio da China, Cuba e outros países comunistas, os rebeldes foram considerados terroristas pelos Estados Unidos, Reino Unido e outros lugares.
Hoje em dia, políticos e celebridades se esforçam para ser associados a Mandela: mais chefes de Estado compareceram ao seu funeral do que ao de João Paulo II, segundo diversos cálculos.
Mas até recentemente, há alguns meses, as autoridades de segurança dos Estados Unidos detiveram altos membros do ANC, porque eles ainda estão listados como terroristas.
"Você pode imaginar, depois de todos esses anos, eles ainda nos chamam de terroristas?", disse Tokyo Sexwale, um proeminente líder do ANC que foi detido no Aeroporto Internacional Kennedy, em outubro, porque seu nome apareceu em uma lista de advertência.
Ele rapidamente obteve permissão para continuar sua viagem por funcionários constrangidos nos Estados Unidos, mas o episódio serviu como um lembrete de que nem sempre Mandela e seu partido foram amados por todos.
David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, participou do memorial e elogiou Mandela como um visionário, mas sua predecessora do Partido Conservador, Margaret Thatcher, se opôs a sanções ao regime do apartheid.
Para pessoas como Pam Paul, professora de Inglês de 72 anos que mora em Howick, o contraste é rico.
"Olha como os tempos mudam", disse Paul ao visitar a escultura.
Como muitas pessoas nesta nação de 50 milhões de habitantes, Paul tinha uma história, e uma fotografia, de quando conheceu Mandela, 17 anos antes. Ela estava morando na cidade costeira de Durban na época, e ela notou o helicóptero presidencial pairando sobre a Kings House, a residência do chefe de Estado na cidade. Quando Mandela se aproximou para cumprimentar a multidão que se reuniu, ele pegou o neto dela, Joshua, em seus braços.
"Minha filha estava trabalhando em um hospital rural na época, e eu contei a Mandela que ela havia lhe dado um nome Zulu, Bonginkosi", disse Paul. O nome significa "graças ao Senhor".
Mandela deu aquele sorriso amplo e em seguida segurou o menino de três meses de idade e lhe deu um beijo. Segurando a fotografia, ela balançava a cabeça.
"Ele disse a cada um de nós: 'É uma honra conhecê-lo'", contou Paul. "Nós ficamos até bambos".
Como muitas pessoas que apoiaram a luta contra o apartheid, ela tinha sentimentos mistos sobre a luta armada.
"Não gostávamos do fato de que ia haver violência, mas aceitávamos que era necessária", disse Paul. "Aqueles tempos eram assim. Mas olhe para nós agora. Chegamos tão longe".
Tradução: Deborah Weinberg

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