sábado, 14 de dezembro de 2013

Futuro da África do Sul é temido após morte de Mandela
Justice Malala - Prospect
Eles estavam cantando canções de liberdade em Soweto naquela manhã. Uma música triste e comum, cantada na língua Sesotho, era uma das mais populares enquanto o amanhecer se aproximava: "Nelson Mandela! Nelson Mandela! Ha hona ya le tshwanang en! Ninguém se compara a ele!"
Mandela, o maior e mais famoso filho da África do Sul, morreu às 8h50 (hora local) de 5 de dezembro passado, segundo anunciou o presidente do país, Jacob Zuma. Um silêncio tomou conta da nação e, em seguida, uma cacofonia de comentários e homenagens jorrou de líderes de todo o mundo. Discursos foram feitos e a tristeza foi compartilhada em todos os lugares, de Washington a Londres. Do lado de fora da casa da família de Mandela, em Johannesburgo, multidões se reuniram; lágrimas cobriram todos os rostos --e sorrisos também.
A África do Sul chora a morte de Mandela. Nas redes sociais e na mídia, a efusão de pesar tem sido enorme. E essas demonstrações só vão se intensificar durante o período de preparativos para o funeral de Estado. Mas, além do pesar, há um imenso orgulho pelo fato de um ser humano de estatura de Mandela ter vivido aqui, andado entre nós e nos liderado. Enquanto a África do Sul se prepara para celebrar 20 anos de democracia, as ideias e a figura desse grande homem são onipresentes.
Quando falamos da "Nação Arco-Íris" em que a África do Sul se tornou, é a ele que devemos o crédito por sua criação. Quando falamos das instituições democráticas que atualmente compõem o cerne de nosso país e de seu cenário político, é a visão e o nome de Mandela que as simbolizam.
Em um país que ficou dividido pelo apartheid durante 46 anos --até 1994--, negros e brancos cantaram juntos diante da casa de Mandela em Houghton, Johannesburgo. Durante os últimos meses, período em que ele foi hospitalizado várias vezes e enquanto a atmosfera política da África do Sul azedava com a aproximação das eleições marcadas para 2014, Mandela sempre conseguiu unir os sul-africanos. Na manhã após a sua morte, sob a luz dura de um mundo sem ele, Mandela ainda nos unia. Enquanto escrevo estas linhas, às 2h38 da manhã, parece que todas as pessoas que eu conheço estão de pé, ligando umas para as outras, tuitando, chorando. Celebrando.
Essas alegres cenas que mantêm viva a memória de Mandela, observadas diante da casa dele, localizada na sonolenta e suburbana Johannesburgo, estão sendo replicadas em Soweto e em outras partes do país.
No entanto, também há temores sobre o que o futuro poderá trazer. O principal debate político que tem assombrado muitas pessoas na África do Sul gira em torno da dúvida sobre o período "pós Mandela": o que acontece quando um grande homem se vai? O que acontece com a ideia de reconciliação, de uma África do Sul unida, democrática e não dividida por raças? Muitos especularam que essa África do Sul se desintegrará sem a cola que era Mandela para mantê-la unida.
Ao longo dos últimos anos, quando a economia do país desacelerou de forma precária e a retórica racialmente inclinada aumentou, muitos comentaristas se aventuraram a dizer que a "lua de mel" havia acabado. Essa afirmação, é claro, ignora o fato de que Mandela deixou o poder há 14 anos, desde que saiu da presidência em junho de 1999, e de que ele, por fim, se retirou da vida pública em 2004. Desde então, Mandela ficou praticamente ausente da politica nacional --com exceção de uma intervenção crucial na luta contra a Aids, em meados da década de 2000, após a doença ter ceifado a vida de seu filho mais velho.
A África do Sul enfrenta desafios enormes hoje em dia. O crescimento econômico desacelerou para a anêmica taxa de 2% ao ano, o desemprego entre os jovens está em 52,8% e uma campanha eleitoral turbulenta está em andamento. Além disso, temores cercam a crescente influência do jovem ativista político Julius Malema, que foi expulso do Congresso Nacional Africano (CNA) e é líder do novo Combatentes pela Liberdade Econômica, partido que defende a invasão e a grilagem de terras e a nacionalização das minas, ao estilo do que ocorre no Zimbábue. Disputas trabalhistas estão aumentando e muitos se lembram dos 34 mineiros mortos pela polícia em 2012. Os trabalhadores estão exigindo reajustes salariais em um país considerado um dos mais desiguais do mundo.
O futuro do amado CNA de Mandela também é incerto. O Congresso Nacional Africano é um partido que, para muitos, está infectado pela corrupção e que se afastou de suas raízes democráticas. Zuma tem o hábito de fazer declarações desrespeitosas em relação às mulheres (ele disse que o casamento é uma boa "academia" para elas), ao restante do continente africano e a seus adversários políticos. Sob sua liderança, o partido conseguiu aprovar uma draconiana lei de sigilo que criminalizará os jornalistas investigativos e suas fontes. O CNA também defendeu práticas aparentemente corruptas e, o pior de tudo, agiu de forma insensível em relação aos pobres. Zuma não é Mandela e o partido que ele lidera não é o CNA moral da era Mandela.
O provável resultado político da morte de Mandela deve ser a desintegração do poder do CNA e a deserção contínua dos eleitores. O partido de Mandela poderá ficar fora do governo na África do Sul já em 2019, segundo preveem analistas como Moeletsi Mbeki, vice-presidente do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais.
No entanto, ver a morte de Mandela como um possível gatilho para o colapso da África do Sul democrática, país que ele lutou tanto para construir, seria equivocado: a contribuição de Mandela foi maior do que isso. Mandela demonstrou que, mesmo com esses problemas endêmicos, a África do Sul está unida pela necessidade de construir um novo país, um país que se distanciou de seu passado dividido por raças.
Haverá nostalgia, tristeza, choro e a celebração de uma grande e bem vivida vida. Em seguida, nós vamos seguir em frente. Os escândalos políticos retornarão. Uma eleição será realizada. As primeiras páginas voltarão para a sua dieta básica da ganância e fofocas.
Nós vamos voltar a ser um país conturbado e sofrido, que enfrentou a ruína em 1990 e que foi ensinado por um homem e por seus companheiros que a mudança era possível. É por isso que eles estavam cantando diante da casa de Mandela naquela manhã. E é por isso que eles ainda estão cantando agora --celebrando um grande homem cujo legado de reconciliação durará mais tempo que muitos de nós.

Tradutor: Cláudia Gonçalves

Nenhum comentário: