Christine Legrand - Le Monde
O 30º aniversário da volta da democracia à Argentina após sete anos de
ditadura militar (1976-1983), que seria celebrado com grande pompa na
terça-feira (10), foi manchado por uma onda de saques que vem abalando o
país há vários dias, durante a qual centenas de lojas foram saqueadas e
resultou em dezenas de mortes.
A situação era particularmente tensa na terça-feira em Tucumán (norte), onde lojas eram vigiadas por funcionários armados. Por cautela, em vários municípios os comerciantes fecharam suas portas e fizeram barricadas.
O chefe de gabinete da presidência, Jorge Capitanich, afirmou que os saques "não foram espontâneos, e sim organizados". "São grupos que querem provocar o caos e o pânico", ele afirmou, fazendo alusão a uma "tentativa de desestabilização do governo" orquestrada pela oposição. Crítico do governo, o Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel também condenou "o método dos policiais que deixam a população sem defesa", ao mesmo tempo em que reconhece "a justa reivindicação salarial da polícia". O papa argentino Francisco, em Roma, fez um "apelo por paz".
Em meio ao calor do verão austral, às vésperas das festas de Natal, as imagens de violência que passam na televisão e nas redes sociais mostrando ruas esvaziadas pelas forças policiais, hordas de saqueadores atacando lojas e até casas particulares, reavivaram os fantasmas da revolta social de 2001, que também havia estourado em um mês de dezembro. No início da mais grave crise econômica argentina, milhares de manifestantes saíram às ruas de Buenos Aires, "exigindo a saída de todos os políticos".
Hoje, o principal temor do governo é que essa violência se alastre para a Grande Buenos Aires, periferia da capital, o distrito mais povoado e onde se concentram os maiores bolsões de pobreza. Para evitar o contágio, o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, adiantou a data de pagamento do 13º salário de 500 mil funcionários públicos e concedeu grandes aumentos aos policiais, equivalente ao dobro de seus salários, passando de aproximadamente 390 para 750 euros por mês.
O governo condenou o "vandalismo", argumentando que os saqueadores cobiçavam menos as prateleiras de comida dos supermercados do que lojas de roupas, bebidas alcoólicas e produtos eletrônicos de grandes redes. Os últimos meses foram marcados por uma disparada nos preços que o governo não tem conseguido controlar. Pior, as estatísticas oficiais afirmam que a inflação não ultrapassa os 10%, ao passo que os argentinos têm visto os preços subirem todos os meses, quando não todos os dias. A inflação real chegaria a 27%. Essa manipulação de números foi criticada pelo Fundo Monetário Internacional. A queda das reservas do Banco Central é outro motivo de preocupação.
A maioria presidencial registrou um revés nas eleições legislativas do dia 27 de outubro, sendo derrotada nas principais províncias. O descontentamento social é alimentado pelo aumento dos preços e pelas difíceis condições de vida do dia a dia. Recentemente, a tarifa do metrô de Buenos Aires dobrou, sendo que as linhas se encontram em um estado calamitoso, assim como os trens e os ônibus. Andar de transporte público se tornou uma odisseia muitas vezes arriscada, considerando que vários acidentes ferroviários causaram dezenas de mortes, sobretudo em fevereiro de 2012 (51 mortos).
Apesar do clima social tenso, a presidente peronista, Cristina Kirchner, que recentemente reassumiu seu cargo após seis semanas de convalescença de uma cirurgia no cérebro, manteve as festividades previstas para terça-feira em Buenos Aires, na Praça de Maio, em frente ao palácio presidencial.
Kirchner condenou os "saques planejados" e "aqueles que carregam armas mantendo a sociedade como refém". "Mais do que nunca é preciso defender os valores da democracia diante dos violentos que querem fazer com que desprezemos esses valores", ela acrescentou, em um discurso onde ela defendeu não somente a democracia argentina, como também sua "política econômica baseada no crescimento e na inclusão social".
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