Meia volta, volver
Mac Margolis - O Estado de S.Paulo
Vez por outra, a América Latina enverga o caminho. Se os
anos 80 demarcaram a redemocratização, a década de 90 ficou para as
reformas liberais, com venda de estatais perdulárias e abertura de
mercados enclaustrados. No rescaldo, chegou o novo milênio, pela porta
da esquerda. Foi a grande "onda rosa", de Manágua a Santiago. A ordem do
dia era a intervenção na economia, capitalismo de Estado, crédito fácil
para os consumidores e mimos para empresas campeãs. O que virá agora?
Se depender dos fiadores do poder atual, a temporada rosa ainda vai
longe. Até 2022 no Brasil, afirma o ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. No entanto, o líder petista quer mais. Figura fácil no horário
eleitoral alheio, só neste ano gravou mensagens de apoio ao venezuelano
Nicolás Maduro, à socialista hondurenha Xiomara Castro e à chilena
Michelle Bachelet. No último Foro de São Paulo, exortou os latinos para
acenderam o "farol" para a "enfraquecida" esquerda global.
Falou tarde. Do Cone Sul ao istmo centro-americano, partidos e
propostas da esquerda começam a perder seu encanto. No México, Enrique
Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), trouxe de
volta a sobriedade fiscal e reformas capitalistas. Na Colômbia, Juan
Manuel Santos baixou o tom do seu belicoso antecessor, Álvaro Uribe, mas
manteve as políticas liberais e a linha dura contra o narcoterrorismo
que deve lhe garantir a reeleição.
Mais ao sul, a dinastia K chega ao fim pela mesma via que ascendeu:
as urnas. A derrota cavalar dos aliados da presidente Cristina Kirchner
nas eleições de novembro enterrou seu projeto para voltar à Casa Rosada.
Dilma Rousseff mantém-se favorita nas pesquisas para 2014, mas, com a
economia atolada, um segundo mandato teria bem menos benesses e mais
austeridade, para desagrado da base rosada. No Chile, a socialista
Bachelet deve vencer o segundo turno, dia 15, mas não terá a maioria
necessária para impor as reformas radicais que esboçou.
Ainda mais delicada é a situação de Maduro, que se elegeu sucessor de
Hugo Chávez pelo fio da navalha e hoje pena para ressuscitar a economia
venezuelana, beirando a ruína. Em Paraguai, Honduras, Panamá e
Guatemala, partidos do centro-direita assumiram.
Não se pode falar ainda numa nova onda liberal, mas a longa volta
pela tangente esquerda latina perdeu seu rumo. Até porque seu rumo
partiu mais das circunstâncias do que de convicções. A onda rosa sempre
dependeu de outra onda maior, a dos commodities, essa puxada pela
economia chinesa, que agora começa a arrefecer.
O boom se foi e, com ele, foi-se também o pacote de bondades -
emprego farto, crescimento forte, crédito barato - com que os
governantes latinos conquistaram corações e mentes. De quebra, os países
mais desenvolvidos ensaiam uma recuperação. O Fed (Banco Central dos
EUA) subiu os juros, enxugando a liquidez que deu lastro aos emergentes.
Avanços tecnológicos também puxaram o tapete dos mandatários cor de
rosa. No auge, Chávez portou-se como o xeque do Orinoco, brandindo suas
amplas reservas de petróleo como arma contra os dependentes da energia
importada. A revolução na extração de gás de rochas terrestres - o
fracking -, porém, redesenhou o mapa da energia global. Hoje, os EUA
caminham para a autossuficiência energética e vendem mais combustível
para a América Latina que a Venezuela.
É hora de a América Latina tirar as reformas esquecidas da cartola. O
Chile mostrou o caminho com os estímulos anticíclicos: poupar em dias
fartos para gastar na adversidade. Os surfistas da onda rosa aprenderam a
lição pela metade. A bonança os autorizava gastos, aparelhamento da
máquina pública e empréstimos subsidiados. A escassez, mais ainda.
Equilíbrio fiscal, metas de inflação, dívidas enxutas tornaram-se opção
facultativa. Pelo jeito, sua passagem pelo poder, também.
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