Folha de coca para exportação
O Estado de S.Paulo
Dois estudos divulgados recentemente, um do Escritório
das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e outro financiado pela
União Europeia (UE), mostram que a Bolívia produz muito mais folhas de
coca do que o necessário para atender à demanda dita "tradicional". O
resultado disso é que sobra matéria-prima para a fabricação de cocaína,
alimentando o narcotráfico. Embora o tema seja delicado, pois envolve
questões culturais do país vizinho, o Brasil tem de adotar uma posição
firme e cobrar providências do presidente Evo Morales, pois mais da
metade da cocaína apreendida em território brasileiro vem da Bolívia.
A produção de folhas de coca, usadas em rituais e para fins
medicinais, é regulamentada na Bolívia desde 1988. A lei permite o
cultivo em 12 mil hectares, mas Morales prometeu ampliar a área para 20
mil.
Em janeiro passado, a Organização das Nações Unidades reconheceu o
direito dos bolivianos de mascarem a planta. No entanto, a exportação da
folha continua proibida, conforme a Convenção de Viena sobre
Entorpecentes. Por essa razão, o governo boliviano vem sendo pressionado
a limitar a produção da planta às necessidades do consumo interno.
A pesquisa Estudo Integral da Demanda de Folha de Coca na Bolívia,
fruto de convênio entre a UE e o governo da Bolívia, foi realizada em
atendimento a essa pressão. Ela indica que três em cada dez bolivianos
consomem habitualmente folhas de coca. Com isso, seriam necessárias
20.690 toneladas da planta, que podem ser produzidas em 14.705 hectares.
No entanto, de acordo com um estudo da UNODC publicado em agosto
passado, a área plantada chega a 25,3 mil hectares. "Há uma produção que
não corresponde aos usos tradicionais, uma produção destinada a usos
criminosos", comentou Christian Leffler, enviado da UE à Bolívia.
O estudo da UE indica ainda que 30% dos bolivianos que dizem consumir
a folha de coca não sabem justificar seu uso. Para o ministro de
Governo da Bolívia, Carlos Romero, esse dado é significativo porque, se o
entrevistado não informou como consome a folha de coca, é sinal de que
"provavelmente a utiliza para o mercado ilegal" - que certamente
remunera muito melhor do que o mercado formal.
Os resultados constrangem Morales, tanto dentro quanto fora do país.
Talvez por isso seu governo tenha levado tanto tempo para divulgá-los: a
pesquisa foi encomendada em 2007 e sua publicação estava prometida para
2010. Para justificar o atraso, o governo alegou que foram necessários
14 estudos complementares.
O fato, porém, é que Morales está sendo pressionado pelos cocaleiros
da região do Chapare, onde se encontra sua base política, para que sejam
favorecidos na divisão das terras destinadas ao plantio legal. Como o
estudo sobre o consumo da folha de coca mostrou que a demanda pode ser
atendida com uma área menor, a disputa com outros plantadores, que já é
grande, tende a se acirrar, trazendo provável desgaste político a
Morales, candidato a um novo mandato.
O problema é que a indisposição de Morales para contrariar os
interesses dos cocaleiros dá liberdade de ação a plantadores que
alimentam o narcotráfico. A regulamentação do plantio de folhas de coca
passou a ser letra morta, pois avança a olhos vistos a área destinada ao
cultivo ilegal - no Chapare, somente cerca de 5% da produção é
negociada no mercado legal.
Para justificar a ampliação da área plantada, o governo boliviano
sugere que a folha de coca possa ser industrializada e exportada, na
forma não apenas de chá, mas de produtos como licores e remédios. Tal
possibilidade é rechaçada por autoridades brasileiras e europeias porque
certamente criará uma fachada para plantações cujo destino principal é o
lucrativo narcotráfico.
Formalmente, o Brasil reafirmou "o direito da Bolívia de cultivar
coca para fins de uso tradicional interno", mas enfatizou que a
exportação é ilegal. O tom correto é esse. A erradicação das plantações
ilegais da matéria-prima da cocaína no país vizinho é um imperativo, que
não pode ser subvertido por interesses políticos ou compromissos
ideológicos.
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