quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Como a migração prejudica os países pobres, de onde saem muitos imigrantes
Paul Collier - NYT
Os liberais lutaram por muito tempo pelos direitos dos imigrantes. As empresas lutaram por muito tempo pelo direito de as pessoas imigrarem. Esta é uma distinção crucial.
Mark Zuckerberg, do Facebook, criou este ano uma organização lobista, a FWD.us, para tentar unir as duas causas, colocando a necessidade de uma reforma abrangente da imigração nos Estados Unidos como uma questão de justiça. "Onze milhões de pessoas é muita gente que está sendo tratada injustamente no momento", disse ele. Por mais que Zuckerberg pareça advogar em interesse próprio --a reforma da imigração, não por acaso, se alinha perfeitamente com os interesses do setor de tecnologia--, sua retórica de mente elevada reflete uma tentativa de apelar para os liberais pró-imigração, que presumem que uma maior abertura é a coisa mais humana a se fazer. Mas mais humana para quem? O que é bom para os imigrantes de lugares pobres nem sempre é bom para os países que eles estão deixando para trás.
A migração é boa para os países pobres, mas não de qualquer forma, e não em quantidades ilimitadas. A migração que a pesquisa mostra ser inequivocamente benéfica é do tipo em que os jovens viajam para democracias como os Estados Unidos para cursar o ensino superior e, em seguida, voltam para casa. Esses jovens não só levam de volta habilidades valiosas aprendidas em sala de aula; eles também levam de volta as atitudes políticas e sociais que assimilaram de seus colegas de classe. Suas habilidades aumentam a produtividade da maioria não qualificada e as suas atitudes aceleram a democratização.
Por exemplo, dados globais desde 1950 sobre alunos de países pobres que estudaram no exterior mostram que aqueles que foram para as democracias aceleraram a liberalização política em suas sociedades de origem mesmo que seus números fossem pequenos. A democratização na América Latina, África e Ásia tem sido apoiada por este processo. Em um artigo de opinião no "The Washington Post" na última primavera, Zuckerberg perguntou: "por que chutar para fora mais de 40% dos estudantes de matemática e ciências que não são cidadãos dos Estados Unidos depois de educá-los?". Minha resposta: seja qual for a razão, é uma forma altamente eficaz de ajudar as sociedades mais pobres.
Mesmo o que parece ser uma "fuga de cérebros" às vezes pode ser benéfico. Quando as pessoas com boa escolaridade emigram e se estabelecem num país mais rico, o país mais pobre sofre uma perda direta; mas, ao demonstrar que o esforço para conquistar uma educação pode levar ao triunfo, isso pode encorajar muitos outros a estudar também. A fuga de cérebros se torna uma realidade apenas se muitas pessoas com boa escolaridade deixam o país.
Mas muitos países pobres têm muita emigração. Não quero dizer que eles estariam melhor se não houvesse nenhuma, mas que estariam melhor com menos. Os grandes vencedores na emigração de mão-de-obra qualificada são a China e a Índia. Como cada um tem mais de um bilhão de pessoas, proporcionalmente poucas pessoas saem.
Em contraste, pequenos países em desenvolvimento têm altas taxas de emigração, mesmo que suas economias estejam se saindo bem: Gana, por exemplo, tem uma taxa de emigração de pessoas qualificadas 12 vezes maior que a da China. Se, além disso, as economias enfrentam problemas, eles sofrem uma hemorragia educacional. Os primeiros lugares na emigração de mão-de-obra qualificada são uma chamada dos países mais pobres. O Haiti perde cerca de 85% dos jovens qualificados, uma taxa que é debilitante. Os emigrantes enviam dinheiro de volta para casa, mas é paliativo ao invés de transformador.
A China e a Índia, com suas baixas taxas de emigração e altas taxas de retorno, têm dominado o pensamento global sobre como a migração afeta os países de origem. Mas o principal desafio do desenvolvimento é, agora, se as sociedades pobres e pequenas podem alcançar os demais. Ao contrário da China e da Índia, elas têm muita emigração. Elas não podem fazer muita coisa a respeito, mas nós podemos fazer muito: suas taxas de emigração são definidas por nossas políticas de imigração.
Grande parte da pressão por uma maior imigração vêm das diásporas querendo trazer parentes dependentes. Mas se curvar a essa pressão não é necessariamente humano: trazer parentes para os EUA reduz o incentivo para que eles enviem remessas para casa. As famílias migrantes fazem bem para si mesmas ao saltar para uma fila de botes salva-vidas em direção ao mundo desenvolvido, mas isso pode acontecer à custa de um grupo bem maior de famílias que fica para trás.
Aparentemente o argumento mais incontestável para abrir mais as portas para imigração é fornecer um refúgio para aqueles que fogem de sociedades em colapso. As democracias de alta renda devem de fato fornecer esse refúgio, e isso significa deixar mais pessoas entrar. Mas o direito ao refúgio não implica necessariamente o direito de residência. As pessoas que têm mais chances de fugir de sociedades em crise são as elites: os verdadeiramente pobres não conseguem ir além de um acampamento ao longo da fronteira. Depois da crise, as elites são necessárias em seus países. No entanto, se elas adquirem visto permanente de residência, relutam em voltar.
Por exemplo, o Sudão do Sul, um dos países mais pobres do mundo, está perdendo com um fluxo de remessas de valores: autoridades do governo me disseram que pessoas-chave só podem ser persuadidas a voltar por altos salários e, mesmo assim, deixam suas famílias no exterior e enviam seus rendimentos sudaneses para elas. Nossa prioridade deve ser elaborar políticas de refúgio que conciliem o nosso dever de resgate com as preocupações legítimas dos governos após os conflitos para atrair de volta as pessoas que poderiam reconstruir seus países. Os emigrantes enfrentam um problema de coordenação: voltar para casa é muito menos assustador se outros estão fazendo o mesmo. O direito de refúgio poderia incluir regras de limitação ligadas a acordos de paz e os esforços monitorados dos governos pós-conflito.
Pessoas jovens, brilhantes e empreendedoras catalisam o progresso econômico e político. Eles são como fadas madrinhas, proporcionando benefícios, intencionalmente ou não, para o resto da sociedade. Transferir mais fadas madrinhas dos países mais pobres para os mais ricos pode ser visto sob vários aspectos. Isso tem um apelo para as companhias pois se trata de uma fonte barata de talento. Apela para os economistas como algo eficiente, porque as fadas madrinhas são realmente mais produtivas no mundo rico do que no pobre. (Não é uma surpresa que a abundância de capital e habilidades aumente sua produtividade.) Isso apela para os libertários como algo que liberta a escolha humana do peso mortal do controle burocrático. E numa visão mais radical, os aficionados de Ayn Rand veem isso como a libertação triunfal de uma minoria forte das garras da maioria fraca: "os migrantes dão de ombros."
Muitos na esquerda, por sua vez, não gostam de reconhecer que estamos tirando as fadas madrinhas. Eles preferem acreditar que estão ajudando as pessoas pobres a fugir de situações difíceis em seus países. Mas podemos estar alimentando um círculo vicioso, em que o país fica pior precisamente porque as fadas madrinhas vão embora. Os humanitários ficam presos tentando ajudar indivíduos e portanto perdem as implicações maiores: há pessoas pobres e há sociedades pobres. Uma porta aberta para os talentosos ajudaria o Facebook, mas não os países mais pobres.

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