Jack Healy - NYT
Matthew Staver/The New York Times
Dara
Lightle prepara para sua filha Madeleine uma dose de óleo derivado de
maconha que está sendo usado para aliviar convulsões. Os Lightles estão
entre um grupo de famílias que se mudou para o Estado
Enquanto seus filhos balbuciavam sentados em suas cadeiras de rodas ou
eram embalados suavemente nos braços dos pais, os migrantes da maconha
do Colorado deram as mãos, inclinaram suas cabeças e fizeram uma oração
de agradecimento circunspecto.Eles agradeceram a Deus pelo jantar, cujo menu era peru assado e purê de batatas, por seus filhos e pelo soro à base de maconha, que atraiu cem famílias para o Estado norte-americano do Colorado, em uma peregrinação desesperada para acabar com as ondas de convulsões que se desenrolam dentro da cabeça de seus filhos. Eles vêm da Flórida e da Virgínia, da Carolina do Sul e de Nova York, e fazem fila para tratar seus filhos com um óleo promissor --mas que ainda não foi amplamente testado--, considerado um medicamento legal neste Estado simpático ao uso da maconha.
"Obrigado por nos unir", disse Aaron Lightle, que se mudou para o Colorado com sua mulher e sua filha de 9 anos, Madeleine, depois que os neurologistas da menina sugeriram a remoção de parte de seu cérebro para interromper suas convulsões implacáveis. "Obrigado por nos unir de um jeito louco, talvez. Mas, ei, aqui estamos nós".
Amém, disseram eles.
Essa onda migratória é uma dentre as inúmeras formas por meio das quais uma droga outrora ilícita está remodelando a vida no Colorado, Estado norte-americano que agora está na vanguarda do debate sobre a legalização das drogas nos Estados Unidos. E, embora essas famílias estejam buscando tratamento por meio de um sistema que oferece maconha medicinal e existe há anos, elas estão chegando ao Estado num momento em que a droga está se tornando parte primordial da vida pública local, após seu uso recreativo ter sido legalizado em uma votação histórica no ano passado.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos permitiu cautelosamente que os Estados do Colorado e de Washington, que aprovou uma medida semelhante, seguissem adiante com seus planos para regulamentar o uso recreativo da maconha, apesar de a droga permanecer ilegal de acordo com a lei federal. As primeiras lojas de varejo que comercializarão maconha no Colorado devem abrir as portas em janeiro do ano que vem. As variedades sativa e indica da planta florescem em porões por todo o Estado. Esta semana, a Câmara Municipal de Denver aprovou uma permissão para que as pessoas possam fumar maconha em suas propriedades, apesar de ter mantido a proibição às tragadas em locais públicos.
Os recém-chegados se autodenominam refugiados da maconha. Muitos deixaram empregos e membros da família para trás em Estados onde a maconha continua sendo considerada uma droga ilegal --ou nos quais a planta não pode ser usada no tratamento de crianças. Enquanto alguns se mudaram com a família toda para o Colorado, outros se separaram dos familiares e vieram sozinhos. Esses têm que arcar com o aluguel e a criação dos filhos em dois Estados diferentes. Durante as festas de fim de ano, eles realizam encontros familiares por meio de chats de vídeo na internet e trocam fotos de suas árvores de Natal via celular.
Mas, à medida que mais e mais famílias chegam ao Estado para registrar seus filhos como pacientes aptos a receber a maconha medicinal, uma grande família substituta vai sendo criada por aqui, nos subúrbios e nas colinas localizadas no sopé da região montanhosa de Front Range. Essa família ampliada é composta por muçulmanos e por cristãos conservadores, por democratas liberais e por republicanos conservadores.
Agora eles preparam jantares e tomam conta dos filhos uns dos outros. Eles se reúnem para comparar os progressos e as crises diárias de seus filhos. Eles discutem as melhores formas para administrar o óleo a seus filhos. Eles aguardam e anseiam por resultados que reflitam os sucessos surpreendentes já vistos em reportagens de TV e em vídeos na internet.
"Eu coloquei tudo o que cabia dentro do meu carro e dirigi até aqui", disse Marisa Kiser, cujo filho de 19 meses, Ezra, tinha convulsões desde que os três dias de idade.
As famílias despejaram suas esperanças em um óleo de maconha batizado de Charlotte's Web (em português, "A Menina e o Porquinho", livro infantil escrito pelo autor norte-americano E.B. White), que é produzido por um laboratório que fabrica maconha medicinal em Colorado Springs. O laboratório, chamado de Indispensary (por analogia à palavra inglesa "dispensary", que significa local onde medicamentos são preparados e entregues aos pacientes, muitas vezes em um hospital), também vende muitas variedades de maconha altamente potentes e produtos comestíveis feitos com a planta. No Indispensary, os compradores de maconha medicinal precisam apresentar receitas de dois médicos do Colorado para poderem adquirir a droga.
O óleo Charlotte's Web tem uma rica cor de âmbar e é tão espesso quanto mel frio. Ele tem cheiro de maconha e gosto de plantas cruas. Joel Stanley, um dos cinco irmãos que dirigem o laboratório, diz que o óleo tem baixo teor de THC, substância que faz os usuários ficarem "chapados", mas contém muito canabidiol, ou CBD, uma substância química que não dá "barato", mas que, segundo os defensores da maconha e os pesquisadores médicos, pode ser utilizada para tratar várias doenças.
Um suprimento do óleo suficiente para um mês pode custar entre US$ 150 e US$ 250, e algumas famílias dizem que recebem ajuda financeira da Realm of Caring Foundation, uma entidade sem fins lucrativos vinculada ao laboratório.
Em um vídeo do YouTube produzido pela fundação Realm of Caring, duas mães descrevem como seus filhos foram transformados após tomarem o óleo durante alguns meses. Em um trecho emocionante, Paige Figi se recorda como as convulsões costumavam sacudir sua filha Charlotte a cada 15 minutos, impedindo que a menina andasse ou falasse. Na próxima cena, a menina aparece dançando vestida em um collant rosa e grita: "bailarina!".
Heather Jackson, a outra mãe que aparece no vídeo, ficou tão convencida do potencial de cura do CBD que agora é diretora-executiva da Realm of Caring Foundation.
Jackson disse que seu filho, Zaki, que chegou a ter 200 convulsões por dia, ainda enfrenta uma série de problemas de desenvolvimento e provavelmente precisará de ajuda para o resto de sua vida. Mas, apesar disso, Jackson garante que seu filho está há 14 meses sem sofrer nenhuma convulsão. Uma gravação da atividade elétrica do cérebro do menino, realizada antes do início do tratamento, mostrou uma agitação caótica de enormes picos e depressões profundas. Uma leitura conduzida vários meses depois mostrou oscilações mais suaves para a atividade elétrica do cérebro de Zaki.
"É realmente incrível", disse Jackson em uma entrevista. "Por alguma razão, o óleo fez com que a síndrome dele entrasse em remissão."
Há apenas pesquisas médicas esparsas para fundamentar essas alegações. Isso se deve, em grande parte, ao status de droga ilegal conferido à maconha, que manteve a planta fora do alcance de muitos cientistas norte-americanos. Estudos realizados em 1975 já sugeriam que o canabidiol é capaz de prevenir espasmos em animais de laboratório, e alguns pesquisadores norte-americanos têm realizado estudos restritos em pessoas.
A doutora Margaret Gedde, médica do Colorado que recomendou maconha medicinal para dezenas de famílias com crianças gravemente epilépticas, conduziu recentemente uma pequena pesquisa que gerou resultados promissores. Das 11 famílias que trataram seus filhos com óleo com altas concentrações de CBD, oito informaram que as convulsões de seus filhos tinham diminuído entre 98% e 100%. As outras famílias registraram recuos menores, embora também perceptíveis.
Gedde e seu colega de pesquisas, o doutor Edward H. Maa, professor assistente de neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Colorado, vão apresentar seus estudos para a Sociedade Norte-americana de Epilepsia durante um encontro a ser realizado na semana que vem.
Tradutor: Cláudia Gonçalves
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