sábado, 14 de dezembro de 2013

Em elogio a Mandela, Obama fez repreensão à África
Mark Landler - NYT
Quando o presidente Barack Obama fez seu elogio a Nelson Mandela em Soweto, na terça-feira (10), ele pretendia que fosse tanto uma celebração de Mandela e uma repreensão, não apenas a si mesmo por não viver à altura do legado de Mandela, mas também aos líderes africanos que o escutavam na chuva.
A mensagem de Obama ao restante do continente foi ofuscada por ter vinculando tão profundamente sua vida pessoal com a de Mandela, sem contar o aperto de mãos com o presidente de Cuba, Raúl Castro, e por ter tirado uma "selfie" com os primeiros-ministros britânico e dinamarquesa.
Mas o tom de censura do presidente foi inconfundível.
"Há muitos de nós que abraçam alegremente o legado de Madiba de reconciliação racial, mas resistem passionalmente até mesmo a reformas modestas que combateriam a pobreza crônica e a crescente desigualdade", disse Obama, usando o nome de clã de Mandela.
A luta da África, disse Obama, não terminou com libertação, direitos iguais ou sufrágio universal. Ela continua com o esforço laborioso por melhor governança, menos corrupção, defesa mais forte dos direitos humanos, escolas funcionais e menos conflitos sectários –uma luta, dizem seus assessores, que ele acredita ser frustrada por líderes corruptos e fracos.
Não é a primeira vez que Obama pede por mais responsabilidade na África sub-Saara. Em sua primeira viagem para lá como presidente, em julho de 2009, ele disse aos legisladores em Gana que a África precisava de mais líderes que não planejassem golpes e mudassem Constituições para permanecer no poder.
"A África não precisa de homens fortes", ele disse. "Ela precisa de instituições fortes."
A diferença agora é que Obama não é mais apenas um símbolo de esperança, o filho nativo que levou o Parlamento de Gana a sair cantando "Sim, nós podemos!" Ele tem 5 anos e meio de retrospecto de engajamento, que atendeu as esperanças de alguns, mas decepcionou muitos outros, que veem uma distância entre suas palavras e atos.
"Eu dou crédito a ele por levantar isso", disse J. Peter Pham, diretor do Centro para a África do Conselho do Atlântico. "Devido a quem ele é, sua aparência, o presidente pode dizer isso. Outra pessoa nessa posição não escaparia impune  ao repreender os africanos assim."
Mas, acrescentou Pham, "seria bem mais crível se eles seguissem isso de fato."
Para cada Laurent Gbagbo, o líder despótico da Costa do Marfim que Obama ajudou a tirar do poder por meio de telefonemas a outros líderes africanos (e um telefonema rejeitado pelo próprio Gbagbo), há um Joseph Kabila, o presidente da República Democrática do Congo, que continua sendo apoiado pelos Estados Unidos apesar de ter se mantido no cargo em uma eleição fraudulenta.
O governo Obama manteve a pressão sobre o presidente do Quênia, Uhuru Kenyatta, que é acusado pelo Tribunal Penal Internacional por seu papel na violência mortal após as eleições de 2007. Mas em setembro de 2009, ele concedeu um contrato de US$ 540 milhões do Desafio do Milênio ao Senegal, que sofria na época com clientelismo desenfreado.
"De certo modo, com o passar do tempo ele se tornou mais um presidente americano normal", disse Jennifer G. Cooke, diretora do programa para África do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais.
A boa notícia, dizem Cooke e outros especialistas, é que Obama traçou uma nova abordagem em seu segundo mandato, que reflete como mudaram o continente e o papel dos Estados Unidos. Durante a viagem para lá em meados do ano passado, ele enfatizou os investimentos em energia, notadamente o Power Africa, um programa de US$ 7 bilhões para levar eletricidade a uma maior parte da África sub-Saara.
Com a China e outros países despejando dinheiro na África, o foco pode ajudar a manter os Estados Unidos no jogo. Cooke notou que após o governo ter pressionado Kenyatta a respeito de seus problemas legais, ele fez sua primeira visita oficial a Pequim.
"Muitos desses líderes autoritários estão muito menos inclinados a dar ouvidos aos Estados Unidos, porque eles têm outras alternativas", ela disse.
Mesmo assim, Obama mantém uma estatura extraordinária na África. E em seu elogio a Mandela, ele não hesitou em fazer uso pleno disso. O redator de discursos de política externa do presidente, Benjamin J. Rhodes, disse que Obama trabalhou em cima do discurso, levando o esboço de Rhodes e o reescrevendo inteiramente à mão –algo que ele fez apenas uma vez antes, no discurso de aceitação do Prêmio Nobel da Paz.
O presidente trabalhou nele durante o voo até a África do Sul, fazendo pausas para fazer o papel de anfitrião ao ex-presidente George W. Bush e sua esposa, Laura, e Hillary Rodham Clinton, a ex-secretária de Estado, que estavam a bordo do Força Aérea Um.
Ao apontar Mandela como exemplar, o presidente também mencionou Walter Sisulu e Oliver Tambo, dois outros pais fundadores do Congresso Nacional Africano. Sua intenção, disse Rhodes, era "esboçar um modelo de liderança", não apenas se concentrar em um indivíduo singular.
Para isso, Obama deu atenção aos jovens africanos que estão ascendendo a papéis de liderança. Em 2010, o 50º aniversário da libertação de 17 países da África sub-Saara do governo colonial, ele reuniu africanos de quase 50 países na Casa Branca para uma palestra sobre liderança. No ano que vem, ele planeja fazê-lo de novo com 500 jovens africanos.
Dado o retrospecto dividido de Obama em relação à África, é pertinente que ele recorde à multidão em Soweto da insistência de Mandela em reconhecer suas falhas. O presidente citou sua famosa fala: "Eu não sou um santo, a menos que você considere um santo como sendo um pecador que continua tentando".
A morte de Mandela, ele disse, "deveria provocar em cada um de nós um momento de autorreflexão".
"Com honestidade, independente de nossa posição ou circunstância, nós devemos perguntar: Quão bem eu aplico as lições dele na minha própria vida?" ele acrescentou. "É uma pergunta que faço a mim mesmo, como homem e como presidente."
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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