Irã diz que punição dos EUA a empresas ameaça acordo
Delegação iraniana abandona reunião com potências em Viena, na Áustria
País reage à decisão americana de retaliar firmas e pessoas acusadas de burlar sanções a Teerã
FSP - SAMY ADGHIRNI
Um dia após os EUA anunciarem punições contra novas empresas e pessoas
acusadas de burlar sanções contra o Irã, a república islâmica ameaçou
ontem retaliar a medida e disse que a decisão americana afeta as
negociações nucleares mais construtivas em uma década.
Apesar da clara irritação, Teerã se absteve de decretar a ruptura total
do processo diplomático iniciado há um mês, em Genebra, com a assinatura
de um histórico acordo provisório com as potências para tentar pôr fim
ao impasse em torno do programa nuclear iraniano, acusado de ter
objetivos bélicos.
"Estamos avaliando a situação, e o Irã reagirá de acordo com as novas
sanções impostas contra 19 companhias e indivíduos. Isso vai contra o
espírito do acordo de Genebra", disse o vice-chanceler iraniano, Abbas
Araghchi, citado pela agência Fars.
A porta-voz da chancelaria iraniana, Marzie Afjam, também acusou "grupos
dentro e fora do governo americano" de quererem "matar" o pacto obtido
em novembro.
Não está claro de que maneira Teerã poderia reagir à decisão americana.
A Rússia, que faz parte das potências negociadoras, ao lado de EUA,
China, Reino Unido, França e Alemanha, concordou que as punições ferem o
acordo de Genebra.
No mês passado, o Irã se comprometeu a frear a expansão de seu programa
nuclear, reduzir o grau de pureza do seu urânio enriquecido e permitir
monitoramento mais intrusivo de inspetores da ONU.
Em contrapartida, as potências permitiram que Teerã recupere parte de
seus ativos congelados em bancos no exterior e anunciaram alívio de
algumas sanções, entre as quais no setor aéreo e na indústria
automobilística.
As potências também prometeram não impor novas punições ao Irã pelos
próximos seis meses, prazo definido para que as partes se testem
mutuamente antes de um entendimento definitivo.
Mas o governo americano anunciou anteontem novas punições contra
organizações acusadas de burlar sanções contra o Irã impostas por causa
de seu programa nuclear.
Implementadas pelos departamentos de Estado e do Tesouro, as medidas são
amplamente vistas como uma tentativa da Casa Branca de tentar convencer
o Congresso, hostil ao Irã, a não aplicar novas sanções que visem
diretamente os iranianos.
A Casa Branca negou que a medida viole o pacto de Genebra e alegou que o
objetivo é reforçar mecanismos de pressão já existentes.
A iniciativa congela ativos nos EUA de pessoas e empresas do Panamá, da
Ucrânia, de Cingapura e de outros países que são acusadas de fazer
negócios com a transportadora estatal de petróleo do Irã. As entidades
também ficam banidas de fazer negócios no mercado americano.
Embora não visem diretamente o Irã, as medidas podem privar Teerã de importantes parceiros comerciais.
Momentos após o anúncio das punições, uma delegação iraniana que
participava em Viena de uma reunião com as potências sobre aspectos
técnicos da negociação nuclear abandonou o encontro e voltou às pressas
para Teerã.
A União Europeia, que atua como interface das potências nas conversas
com o Irã, minimizou o incidente. Mas fontes diplomáticas consultadas
pela agência de notícias Reuters atribuíram a saída da comitiva iraniana
às novas sanções.
Apesar da tensão gerada pelo episódio, ainda não há sinais claros de que
Teerã decidiu reverter o atual caminho de reaproximação com o Ocidente,
pavimentado pelo presidente Hasan Rowhani.Ele foi eleito em junho com a
promessa de obter alívio para as sanções que devastam a economia do
país.
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