quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Ex-combatentes das Farc relatam horror cotidiano da luta armada
Pablo Ximénez de Sandoval - El Pais
Na guerra não há lugar para um filho. Claudia Roa esteve lá e viveu isso. Aos 14 anos, abandonou seus pais e cinco irmãos em Puerto Inírida, na Colômbia, para ser mais um peão na luta guerrilheira das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Não foi um arrebatamento. Um grupo de guerrilheiros chegou a seu povoado, fez uma amiga, falaram sobre o que pensava fazer na vida, disseram-lhe que a ajudariam a terminar seus estudos primários, que ajudariam sua família. Foi com eles um dia às 7 da manhã, sem avisar ninguém.
No ano seguinte, estava na selva e grávida. Roa afirma que os chefes de sua unidade a fizeram abortar com oito meses de gestação, em uma operação em um casebre na selva. Foi em 2004, e só voltara a ver sua família uma vez, cinco meses depois de abandoná-la. Demoraria dez anos, cheios de penalidades e ressentimento, para voltar a vê-los.
"Fiquei muito decepcionada quando vi que era tudo mentira. Todos os dias pedia perdão pelo que havia feito a minha mãe, que sofreu muito."
O depoimento de Claudia Roa pode ser escutado hoje na Europa, dentro de uma campanha do governo colombiano. Na última segunda-feira esteve na Casa da América de Madri. Ela se integrou a um programa governamental que, desde 2003, ajudou na desmobilização de 45 mil integrantes de grupos armados de todo tipo, por meio de ajuda econômica em troca de informação. No caso das Farc, são sobretudo guerrilheiros de base, cujos nomes não saem nos jornais.
O governo tenta prevenir o recrutamento de novos efetivos na insurgência. Segundo um balanço do Ministério da Defesa, cerca de 2.000 membros das Farc se desmobilizaram entre setembro de 2011 e agosto de 2013. No mesmo período, 682 morreram em confrontos com as forças de segurança.
Claudia Roa esteve na chamada Frente 16 e depois na área de fronteira com a Venezuela, em um acampamento onde cuidava da rádio. Depois de uma adolescência perdida, conta que voltou a engravidar na selva no ano passado. E conta que, novamente, a obrigaram a abortar quando estava de seis meses. Está convencida de que lhe deram algum veneno na comida, porque se negou a uma operação mesmo sob risco de ser fuzilada. Depois de perder o filho, conseguiu que seu grupo a levasse a um hospital por causa das dores e da infecção consequente de uma nova operação na selva. "Há coisas inacreditáveis", é tudo o que diz sobre aquele parto.
Ali se safou da vigilância e conseguiu fugir para a cidade de Arauca. Em 13 de setembro passado contatou o exército colombiano. Depois de uma década na selva, graças ao programa de reinserção, reuniu-se com sua família em Bogotá. Seu pai não a reconheceu.
Naquele mesmo dia, em Ituango, na outra ponta do país, Medardo Maturana, de 53 anos, conseguia se encontrar com o exército depois de um mês planejando a fuga e 15 horas cavalgando pela selva. Havia chegado às Farc 23 anos antes, de uma forma muito diferente de Roa. Estudava sociologia e estava envolvido no ambiente comunista da universidade. Foi seduzido por "um discurso pegajoso para os jovens, que ainda perdura".
Na guerrilha, onde "o grau de educação médio é o quinto ano primário", Maturana era um intelectual, um homem educado que cuidava do trabalho com as comunidades de agricultores, um homem valioso e conhecido, com responsabilidade na mobilização de massas. "Eu saí da guerrilha sem um arranhão. Os comandos nunca se arriscaram em combate."
Em duas décadas na guerrilha, viu um "discurso ideológico desfigurado". Conta que viu um alcoolismo generalizado entre os comandantes, abusos contra as guerrilheiras, acordos com criminosos para transportar cocaína. "As Farc se transformaram nos protetores da coca", afirma, e controlam áreas inteiras onde só eles podem ter acesso à produção. "Compram do agricultor o quilo por 2 milhões de pesos e o vendem por 2,5" para os narcos. Agora quer, primeiro, fazer o possível para que ninguém mais entre na guerrilha. E também continuar estudando, e conseguir que sua companheira acabe o colegial. Da volta, o que mais o afetou foi ver sua mãe "tão deteriorada, depois de meia vida lá".
Os depoimentos de Medardo e Claudia são alguns dos mais recentes que se podem escutar sobre a vida no interior da guerrilha mais numerosa e antiga da América Latina. Há apenas três meses voltaram à vida civil. O governo colombiano começou há um ano conversações de paz com altos representantes das Farc. Os diálogos, que receberam amplo apoio internacional mas levantam suspeitas em parte da população colombiana, se desenrolaram em Havana e até o momento avançam, embora mais lentamente do que se esperava.
Sobre isso, Maturana afirma que "dentro das Farc tudo continua igual". O relato de paz e aproximação dos dirigentes em Havana não existe em campo. "Nas frentes das Farc se diz uma coisa e em Cuba, outra. Se reproduzissem internamente o discurso de Havana, as pessoas iriam embora mais rápido", diz. Claudia Roa tem a mesma experiência. Diante das notícias que chegam de Cuba, "os guerrilheiros perguntam 'o que vai acontecer conosco?', mas os comandantes lhes dizem que nunca vão se desmobilizar". Mesmo assim, Maturana acredita que "a guerrilha vai ter de cumprir [o pacto]. Não lhe resta outra saída. O mundo está atento".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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