quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Expulsão de dirigente político na Coreia do Norte desestabiliza China
Jane Perlez e Choe Sang Hun - NYT
9.dez.2013 - KCNA
Jang Song Thaek (centro), tio do líder norte-coreano Kin Jong Un, é retirado de reunião do Partido dos Trabalhadores em Pyongyang; a expulsão foi exibida pela TV estatal
Jang Song Thaek (centro), tio do líder norte-coreano Kin Jong Un, é retirado de reunião do Partido dos Trabalhadores em Pyongyang; a expulsão foi exibida pela TV estatal
Há muito tempo os norte-coreanos sabiam que Jang Song Thaek era a segunda pessoa mais poderosa de seu país, o reverenciado tio e mentor de Kim Jong Un, que é o líder supremo da Coreia do Norte atualmente.
Mas, na segunda-feira (9), a TV estatal exibiu dois guardas trajando seus uniformes verdes e segurando um macambúzio Jang pelas axilas enquanto o retiravam de uma reunião do partido que governa o país após denúncias de que o político seria o responsável pela criação de facções dissidentes dentro do governo, de que ele gosta de jogos de azar, é mulherengo e pratica outras atividades --tudo diante dos olhos de dezenas de seus antigos companheiros.
O espetáculo humilhante da demissão e prisão de Jang foi um sinal totalmente incomum da luta pelo poder que tem se desdobrado dentro do país, que é detentor de armas nucleares. Mas o maior impacto desse evento poderá ser sentido fora da Coreia do Norte --e em nenhum outro lugar a queda de Jang foi mais inquietante do que na China.
Tábua de salvação econômica e protetora de longa data da Coréia do Norte, a China considera a manutenção de um relacionamento estrategicamente próximo com a Coreia do Norte como um dos pilares de sua política externa e um bastião contra a presença militar dos Estados Unidos na Coréia do Sul. Apesar da irritação chinesa com os testes nucleares da Coréia do Norte e com outros comportamentos belicosos demonstrados pelo país, a China construiu um bom relacionamento com Jang, que atuava como o adulto confiável que iria acompanhar Kim, que tem menos de metade de sua idade.
Qualquer mudança adotada pela China em relação à Coreia do Norte tem o potencial de alterar significativamente o equilíbrio político na Ásia, onde a dividida península coreana tem sido uma realidade há mais de 60 anos. Embora não exista nenhuma indicação de que os chineses pretendem mudar seu ponto de vista em relação aos norte-coreanos, aparentemente ficou claro que até os principais líderes de Pequim ficaram surpresos com a queda abrupta de Jang no domingo passado --e eles ficaram ainda mais surpresos na segunda-feira, após a transmissão da TV estatal norte-coreana.
"Jang era uma figura muito emblemática na Coréia do Norte, em especial com relação à reforma econômica e à inovação", disse Zhu Feng, professor de relações internacionais da Universidade de Pequim e especialista em Coreia do Norte. "Ele era o homem com quem a China contava para fazer a economia da Coreia do Norte avançar. Esse é um sinal muito ameaçador".
A demissão de Jang foi um choque, não apenas porque ele era considerado há muito tempo como um membro do núcleo central da elite dirigente do país --além de ser o orientador e confidente de Kim, que só assumiu o poder há dois anos, após a morte de seu pai, Kim Jong Il. A maneira como Jang foi demitido também foi considerada extraordinária, uma vez que o governo da Coreia do Norte quase sempre manteve o sigilo sobre seu funcionamento interno, suas lutas pelo poder e as fraudes que ocorriam em seu cerne durante mais de seis décadas sob o comendo da família Kim.
"Com essa atitude, Kim Jong Un declarou para seu país e para o exterior que ele agora é o verdadeiro e único líder da Coreia do Norte e que não vai tolerar um número 2", disse Yang Moo-jin, analista da Universidade de Estudos da Coreia do Norte em Seul, na Coréia do Sul.
Jang visitou a China em várias ocasiões e era considerado o mais importante defensor do estilo chinês de reformas econômicas --reformas que o governo de Pequim vem exigindo que a Coreia do Norte também adote.
Aos 67 anos, Jang é da mesma geração dos líderes chineses. Ao contrário de Kim, 30, --que nunca foi à China e que se mantém como um mistério para os chineses, apesar dos ancestrais de seu avô, o fundador revolucionário da Coréia do Norte, Kim Il Sung--, Jang era considerado por Pequim como uma mão firme e um canal de comunicação confiável na alta liderança da Coreia do Norte. Ele era um dos poucos interlocutores norte-coreanos de alto nível da China.
O fato de vídeo que exibiu a prisão de Jang por militares --ocorrida no domingo passado durante em uma reunião do Politburo-- ter sido divulgado para o público norte-coreano e ter mostrado vários subordinados chorosos denunciando o político foi especialmente inquietante para a China.
A mídia oficial da China deu bastante destaque às acusações contra Jang, incluindo a linguagem exagerada usada pelos meios de comunicação estatais da Coreia do Norte, que desfiou a ladainha das recém-divulgadas transgressões cometidas pelo politico à custa do partido: segundo essas acusações, Jang era mulherengo, jogava, usava drogas e "bebia e comia em salões privativos de restaurantes de luxo". E, talvez o mais importante: politicamente, ele tinha a ambição de desafiar Kim como o "centro único" do poder na Coreia do Norte.
Além disso, entre os crimes de que Jang foi acusado também está a venda de recursos naturais norte-coreanos a preços baixos --acusação que parece ter tido como alvo direto a China, que é a maior compradora de minério de ferro e minerais da Coreia do Norte.
Logo após assumir o poder, Kim reclamou que os recursos naturais da Coreia do Norte, uma das poucas fontes de renda externa do país, estavam sendo vendidos a preços baixos demais. Ele exigiu reajustes para os preços dos minerais, dos minérios de terras raras e do carvão exportados por um crescente número de joint ventures formadas pela China e a Coreia do Norte.
As queixas de Kim foram amplamente divulgadas na China e irritaram operadores chineses de minas, que adoram uma pechincha. Vários desses operadores abandonaram suas operações norte-coreanas.
Agora, o clima para os investimentos chineses na Coreia do Norte, que já não era especialmente bom, provavelmente vai piorar, disse Andrei Lankov, autor de "The Real North Korea" ("A Verdadeira Coreia do Norte") e professor de história da Universidade Kookmin, em Seul.
Na segunda-feira passada, o ministério das Relações Exteriores da China divulgou comentários contidos a respeito da expulsão de Jang e afirmou que o ocorrido é um assunto interno da Coréia do Norte.
"Nós vamos nos manter comprometidos em promover as tradicionais relações amistosas e cooperativas" entre a China e a Coreia do Norte, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hong Lei.
O rebaixamento de Jang levantou a possibilidade do aumento da instabilidade na Coreia do Norte, num momento em que a China tem enfrentado o aumento das tensões com dois de seus outros vizinhos do norte da Ásia: o Japão e a Coréia do Sul.
Um dos maiores medos da China é que o governo da Coreia do Norte --uma aliada desde a Guerra da Coreia-- entre em colapso, o que poderia levar à reunificação da Península Coreana sob um governo liderado pela Coreia do Sul, aliada dos Estados Unidos.
"A China se preocupa com a instabilidade que pode ser provocada por atos como esse", ou seja, a demissão de Jang, disse Lankov.
Cheong Seong-chang, analista sênior do Instituto Sejong, da Coreia do Sul, disse que a demissão pode sinalizar mais disputas internas na Coreia do Norte. "Considerando-se a postura extremamente dura adotada contra Jang e seus seguidores", disse ele, "uma rodada de sangrentos expurgos será inevitável enquanto o regime estiver arrancando as ervas daninhas de sua liderança".
Outra preocupação da China era saber se Kim iria realizar um novo teste nuclear, disse Roger Cavazos, especialista em Coreia do Norte dos EUA, que está visitando Xangai.
Após Kim reorganizar os altos escalões do governo, é possível que os militares emerjam como os vencedores, disse Cai Jian, vice-diretor do Centro de Estudos Coreanos da Universidade Fudan, em Xangai. É provável que "as forças militares se fortaleçam" e que os "políticos linha-dura endureçam ainda mais".
Cavazos concordou. "As forças armadas demonstraram sua lealdade a Kim Jong Un, e Kim Jong Un demonstrou sua lealdade para com os militares".
Tradutor: Cláudia Gonçalves

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