Philippe Pons - Le Monde
A demissão de Jang Song-taek, tio de Kim Jong-un e eminência parda do
regime norte-coreano, é a mais importante "revolução palaciana" em
Pyongyang desde o advento do jovem dirigente após a morte de seu pai,
Kim Jong-il, em dezembro de 2011.
A cena transmitida pela televisão e pela primeira página do "Rodong Sinmun" (órgão oficial do PTC), dedicada aos estragos do "bando de Jang", indica que o regime pretendia fazer dele um exemplo. Dois de seus aliados, Ri Yong-ha e Jang Soo-kil, vice-diretores do departamento da administração do PTC, teriam sido executados em meados de novembro por "corrupção e atividades anti-partido".
Outros, cujo destino se ignora, também teriam sido eliminados. O expurgo poderia continuar sem que se percebesse, por ora, uma desestabilização do regime. Esses expurgos poderiam prejudicar a coesão da elite.
A humilhante destituição de Jang Song-taek, 67, vice-presidente da comissão de defesa, membro da cúpula, diretor do poderoso departamento da administração do PTC e próximo da família Kim devido a seu casamento com a irmã de Kim Jong-il, revela a dimensão de um fenômeno visto até hoje de forma subentendida: a disputa de poder que tem ocorrido desde a primavera de 2012 por trás da aparente estabilidade de um regime que se esforçava para passar, nos primeiros meses da sucessão, uma imagem amena com um dirigente jovem, mais jovial e caloroso que seu pai.
No decorrer dos dois últimos anos, quase metade da cúpula militar e dos executivos de médio escalão do PTC foram demitidos. A faxina começou pelo Exército, que na época de Kim Jong-il teve um peso maior e privilégios para ampliar seu controle sobre setores da economia.
A primeira vítima foi o vice-marechal Ri Yong-ho, brutalmente demitido de suas funções como chefe do Estado-maior em julho de 2012. Em seguida, a cúpula do Exército foi decapitada sem dó, em uma sequência de demissões e nomeações: quatro chefes de Estado-maior se sucederam em um ano e meio.
A imagem de Kim Jong-un foi mudando progressivamente: de simples herdeiro cercado de um "conselho de regência" formado da velha guarda, na primavera ele virou um chefe de guerra determinado, provocando tensão na península após o reforço das sanções da ONU que condenavam os testes balísticos e nucleares norte-coreanos.
Do "bando dos sete" --como a imprensa sul-coreana havia apelidado as personalidades que caminharam lado a lado com o carro que transportava o corpo de Kim Jong-il e seriam os protetores escolhidos pelo falecido para o jovem sucessor--, todos foram demitidos ou renunciaram. O único que restara era Jang Song-taek, que apoiou Kim Jong-un quando este recuperou o controle do Exército e do aparelho do PTC.
Como se explica sua desgraça? As acusações de "corrupção" e de "faccionalismo" são recorrentes em um regime totalitário. Com o desenvolvimento da economia paralela, a corrupção --lubrificante necessário para seu funcionamento-- perverte o sistema em todos os níveis; já o faccionalismo, um mal endêmico na Coreia (tanto no Norte quanto no Sul), era o pavor de Kim Il-sung, que remediou isso com os expurgos.
Hipóteses diversas são levantadas pelos especialistas para explicar essa demissão. Em uma análise publicada no site "38 North: Informed Analysis of North Korea", Alexandre Mansouroy menciona quatro delas: Jang Song-taek teria de fato constituído um grupo que prejudicava a autoridade de Kim Jong-un; a rivalidade com um outro "co-regente", o vice-marechal Choe Ryong-hae, diretor do poderoso departamento de política geral do Exército, teria se exacerbado; Jang teria sido excessivamente a favor, segundo alguns, de que o país mudasse para o modelo chinês; por fim, sua mulher, King Kyong-hui, irmã de Kim Jong-il, supostamente doente, teria deixado de apoiá-lo ou não teria conseguido evitar sua desgraça.
Segundo um outro especialista, Andrei Lankov, Kim Jong-un pode ter ficado preocupado com a influência de seu tio e quis mostrar que ele estava no comando. A encenação da demissão certamente dará o que pensar para muitos, mas ela pode criar dissensões dentro da elite e "reavivar os descontentamentos", escreve Lankov no site Nknews.org, acrescentando: "Mas levará tempo até que se sinta o efeito".
Segundo Cheong Seong-Chang, do Instituto Sejong em Seul, essa expulsão não deverá ter muitas consequências políticas, pois "Jang Song-taek tinha menos importância do que se pensava". Quanto às reformas econômicas às quais este último era favorável, Kim Jong-un parece estar engajado demais nessa via para poder voltar atrás. Em compensação, a China está perdendo um homem com o qual ela tinha relações consistentes.
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