quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Kim Jong-un prossegue com os expurgos para consolidar seu poder na Coreia do Norte
Philippe Pons - Le Monde
A demissão de Jang Song-taek, tio de Kim Jong-un e eminência parda do regime norte-coreano, é a mais importante "revolução palaciana" em Pyongyang desde o advento do jovem dirigente após a morte de seu pai, Kim Jong-il, em dezembro de 2011.
A mais teatral também: aquele que seria o número dois no comando do regime foi preso, no domingo (8), em plena reunião dos executivos do comitê central do Partido do Trabalho da Coreia (PTC), levado entre dois militares sob o olhar impassível de seu sobrinho, sentado de forma imponente no palanque, o que não faz parte das práticas habituais da destituição de figuras de primeiro plano. Esses cortes geralmente se faziam de maneira mais discreta, mas não menos radical.
A cena transmitida pela televisão e pela primeira página do "Rodong Sinmun" (órgão oficial do PTC), dedicada aos estragos do "bando de Jang", indica que o regime pretendia fazer dele um exemplo. Dois de seus aliados, Ri Yong-ha e Jang Soo-kil, vice-diretores do departamento da administração do PTC, teriam sido executados em meados de novembro por "corrupção e atividades anti-partido".
Outros, cujo destino se ignora, também teriam sido eliminados. O expurgo poderia continuar sem que se percebesse, por ora, uma desestabilização do regime. Esses expurgos poderiam prejudicar a coesão da elite.
A humilhante destituição de Jang Song-taek, 67, vice-presidente da comissão de defesa, membro da cúpula, diretor do poderoso departamento da administração do PTC e próximo da família Kim devido a seu casamento com a irmã de Kim Jong-il, revela a dimensão de um fenômeno visto até hoje de forma subentendida: a disputa de poder que tem ocorrido desde a primavera de 2012 por trás da aparente estabilidade de um regime que se esforçava para passar, nos primeiros meses da sucessão, uma imagem amena com um dirigente jovem, mais jovial e caloroso que seu pai.
No decorrer dos dois últimos anos, quase metade da cúpula militar e dos executivos de médio escalão do PTC foram demitidos. A faxina começou pelo Exército, que na época de Kim Jong-il teve um peso maior e privilégios para ampliar seu controle sobre setores da economia.
A primeira vítima foi o vice-marechal Ri Yong-ho, brutalmente demitido de suas funções como chefe do Estado-maior em julho de 2012. Em seguida, a cúpula do Exército foi decapitada sem dó, em uma sequência de demissões e nomeações: quatro chefes de Estado-maior se sucederam em um ano e meio.
A imagem de Kim Jong-un foi mudando progressivamente: de simples herdeiro cercado de um "conselho de regência" formado da velha guarda, na primavera ele virou um chefe de guerra determinado, provocando tensão na península após o reforço das sanções da ONU que condenavam os testes balísticos e nucleares norte-coreanos.
Do "bando dos sete" --como a imprensa sul-coreana havia apelidado as personalidades que caminharam lado a lado com o carro que transportava o corpo de Kim Jong-il e seriam os protetores escolhidos pelo falecido para o jovem sucessor--, todos foram demitidos ou renunciaram. O único que restara era Jang Song-taek, que apoiou Kim Jong-un quando este recuperou o controle do Exército e do aparelho do PTC.
Como se explica sua desgraça? As acusações de "corrupção" e de "faccionalismo" são recorrentes em um regime totalitário. Com o desenvolvimento da economia paralela, a corrupção --lubrificante necessário para seu funcionamento--  perverte o sistema em todos os níveis; já o faccionalismo, um mal endêmico na Coreia (tanto no Norte quanto no Sul), era o pavor de Kim Il-sung, que remediou isso com os expurgos.
Hipóteses diversas são levantadas pelos especialistas para explicar essa demissão. Em uma análise publicada no site "38 North: Informed Analysis of North Korea", Alexandre Mansouroy menciona quatro delas: Jang Song-taek teria de fato constituído um grupo que prejudicava a autoridade de Kim Jong-un; a rivalidade com um outro "co-regente", o vice-marechal Choe Ryong-hae, diretor do poderoso departamento de política geral do Exército, teria se exacerbado; Jang teria sido excessivamente a favor, segundo alguns, de que o país mudasse para o modelo chinês; por fim, sua mulher, King Kyong-hui, irmã de Kim Jong-il, supostamente doente, teria deixado de apoiá-lo ou não teria conseguido evitar sua desgraça.
Segundo um outro especialista, Andrei Lankov, Kim Jong-un pode ter ficado preocupado com a influência de seu tio e quis mostrar que ele estava no comando. A encenação da demissão certamente dará o que pensar para muitos, mas ela pode criar dissensões dentro da elite e "reavivar os descontentamentos", escreve Lankov no site Nknews.org, acrescentando: "Mas levará tempo até que se sinta o efeito".
Segundo Cheong Seong-Chang, do Instituto Sejong em Seul, essa expulsão não deverá ter muitas consequências políticas, pois "Jang Song-taek tinha menos importância do que se pensava". Quanto às reformas econômicas às quais este último era favorável, Kim Jong-un parece estar engajado demais nessa via para poder voltar atrás. Em compensação, a China está perdendo um homem com o qual ela tinha relações consistentes.

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