Frédéric Saliba - Le Monde
Vinte e seis caminhonetes passam à toda por uma estrada sinuosa das
montanhas do Estado de Michoacán, oeste do México. Em um cruzamento, uma
enorme picape recoberta de blindagem artesanal assume a liderança do
comboio, desbravando o caminho. "É nosso rinoceronte para forçar as
barreiras e as emboscadas dos narcotraficantes", conta um passageiro,
armado com uma kalashnikov. Assim como ele, uma centena de membros do
"grupo de autodefesa de Michoacán" se prepara para libertar quatro
vilarejos do domínio dos Cavaleiros Templários, o principal cartel de
drogas da região.
"Basta aos estupros, extorsões e crimes dos Templários"
No dia 16 de novembro, nesta cidade de 7.000 habitantes, as milícias de civis assumiram o controle da prefeitura, expulsando policiais municipais. Algumas horas antes, o corpo da filha de um rico produtor de abacate havia sido encontrado crivado de balas. "Foi o que detonou a iniciativa de dar um basta às extorsões, aos estupros e aos crimes dos Templários", conta um trabalhador agrícola de 42 anos, plantado juntamente com uma dezena de colegas em uma das barreiras de sacos de areia que bloqueiam o acesso de Tancitaro. O balanço foram onze Templários mortos e dois feridos do lado da resistência civil. "Éramos bem mais numerosos que eles", ele enfatiza.Na entrada da cidade, um batalhão de militares controla a movimentação. "Estamos impedindo os civis de passarem armados", explica um tenente que faz parte dos 5.000 militares e policiais federais destacados para a região desde maio. No dia 29 de novembro, 1.200 soldados se juntaram a eles. Mas os milicianos escapam da vigilância deles tomando caminhos de terra.
"Não estamos tentando nos opor ao Estado, só queremos expulsar os criminosos", afirma um coordenador do grupo de autodefesa, apelidado de "Comandante Beto". Ao chegar à praça principal de Tancitaro, esse produtor de limão de quarenta e poucos anos transmite pelo rádio suas orientações para as tropas que fazem a patrulha. Seus homens fizeram 15 prisioneiros e os retiveram na prefeitura, onde o prefeito, Salvador Torres, voltou ao trabalho. "Estou assoberbado pela situação", conta este último, antes de deixar o local escoltado por policiais federais.
"Guerra de desgaste"
Ao cair da noite, o clima fica tenso nas ruas de Tancitaro. Os milicianos sacam suas kalashnikovs e acendem fogueiras nas esquinas das ruas para enfrentar os possíveis ataques dos traficantes. "É uma guerra de desgaste", explica um miliciano. Os Cavaleiros Templários controlariam metade dos 113 municípios do Estado de Michoacán, região-chave do tráfico de maconha e de metanfetaminas, onde o ex-presidente Felipe Calderón (2006-2012) havia lançado, no final de 2006, sua guerra contra o narcotráfico. Em outubro, o grupo de autodefesa tentou sem sucesso tomar a cidade de Apatzingán (100 mil habitantes), bastião dos Templários. Em represália, os traficantes incendiaram 18 geradores, privando 400 mil pessoas de energia elétrica.Essas milícias civis nasceram no dia 24 de fevereiro em Tepalcatepec, cidade de 30 mil habitantes. Naquele dia, criadores de gado se revoltaram contra os Cavaleiros Templários. Esse grupo criminoso, que é uma mistura de seita com máfia, surgiu no final de 2010 de uma cisão da Familia Michoacana e vem conduzindo uma luta sanguinária contra o cartel de Jalisco Nova Geração, que surgiu no Estado vizinho de Jalisco: 64 corpos acabam de ser descobertos em valas clandestinas na fronteira entre os dois Estados. Os confrontos diários entre os cartéis, mas também contra o Exército e os milicianos, produziram 943 mortes desde o início do ano.
"Estamos dispostos a morrer para defender nossas famílias", diz José Manuel Mireles, 55, porta-voz do grupo de autodefesa regional. Sentado em um posto de vigilância, esse cirurgião, pai de quatro filhos, garante que "somente o povo pode defender o povo, pois os Templários se infiltraram em todas as esferas políticas e econômicas de Michoacán". No dia 24 de fevereiro, seus milicianos desarmaram a polícia de Tepalcatepec e expulsaram o prefeito. "Não temos ligação com nenhum partido político, nem organização criminosa", alega esse carismático homem de 1,90 metro de altura, com seu grande bigode grisalho, que se recusa a comparar suas tropas a paramilitares. "Estamos só fazendo o trabalho de um Estado capenga com o apoio de ricos proprietários de terras."
"Ameaça ao Estado de direito"
Suas "tropas" dispõem de armas pesadas proibidas. "Fuzis tomados de campos de batalha", responde o Dr. Mireles, que pretende estender seu movimento para uma escala regional e depois nacional. Por enquanto, 49 cidades e vilarejos de Michoacán criaram grupos de autodefesa coordenados entre si. Organizações do tipo existem em dez dos 32 Estados mexicanos, segundo a Comissão de Direitos Humanos. Para Mireles, "a expansão de grupos de autodefesa revela a incapacidade do novo governo de reduzir a violência dos cartéis". Um ano após a posse do presidente Enrique Peña Nieto, os homicídios diminuíram (17.068) em comparação com o último ano de seu antecessor (21.755 assassinatos). Mas os casos de sequestro e de extorsão aumentaram."A situação em Michoacán ameaça o Estado de direito", se manifestou, no dia 27 de novembro, o ministro das Finanças, Luís Videgaray. Uma semana antes, Fausto Vallejo, governador de Michoacán, afirmava que "as autoridades não permitirão a proliferação de grupos de autodefesa". Mas a polêmica tem crescido desde que Luísa Maria Calderón, senadora de Michoacán e irmã do ex-presidente, revelou que havia sido realizada uma reunião no dia 17 de outubro entre senadores e Cavaleiros Templários. A informação não foi confirmada. Para acalmar os ânimos, os militares assumiram o controle, no dia 4 de novembro, do porto de Lázaro Cardenas, substituindo a polícia, acusada de ter ligações com os Cavaleiros Templários.
Mireles não está nem aí. Toda manhã ele vai até o hospital de Tepalcatepec e depois troca seu jaleco branco de médico por um colete à prova de balas. "Primeiro cuido de meus pacientes, depois combato."
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