quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Um eunuco é um dos candidatos pouco ortodoxos a cargos públicos na Índia
Ellen Barry - NYT
Um desfile político fuleiro serpenteou pelas ruelas da região noroeste de Nova Déli na tarde de domingo passado, passando por becos estreitos e por uma ninhada de porcos --carregando consigo uma candidata muito maquiada vestida com um sári azul.
Talvez ninguém notasse a presença da candidata não fosse por uma certa protuberância em sua testa, por sua mandíbula quadrada e por seus slogans de campanha, que eram repetidos por um grupo de mulheres igualmente troncudas e atarracadas e que diziam: "Viva Lili, o Eunuco", "Dê um voto de confiança a Lili, o Eunuco" e "Você já votou em homens, você já votou em mulheres. Agora é a vez de Lili!"
A atual temporada política em Nova Déli tem oferecido opções ao melhor estilo "nenhuma das anteriores" aos eleitores, que irão às urnas para escolher uma nova Assembleia Legislativa Estadual nesta quarta-feira. O aumento dos preços azedou a boa vontade dos eleitores em relação ao partido do Congresso Nacional Indiano até mesmo em bairros pobres e habitados por pessoas das castas mais baixas, como esse onde ocorreu a passeata e onde a população apoiava o partido quase que por um ato reflexo. E, apesar disso, a oposição, representada pelo Partido Bharatiya Janata (BJP), também não chega a ser adorada em muitas regiões.
Como resultado, a eleição deste outono abriu as portas para novos e nada ortodoxos participantes. O mais importante deles, o novo Aam Aadmi, ou Partido do Homem Comum, cuja tentativa de derrubar os pesos-pesados da política local foi a principal fonte de suspense esta semana.
Uma lógica semelhante inspirou Rajkumar Gautam, que estava à procura de pessoas para representar o seu Partido Indiano Bahujan Samajawadi, mas não tinha muito dinheiro para gastar com publicidade. Que candidato poderia encarnar melhor o espírito de "novidade" ou de "nenhuma das anteriores" do que o eunuco Ramesh Kumar Lili, membro de uma subcultura misteriosa e intrincadamente estruturada que tem sido parte da história de Déli há mais de mil anos?
"Nós ouvimos as pessoas dizendo que, desta vez, elas querem uma mudança", disse Gautam diante da estreita vitrine da loja que serve como sede para a sua agremiação, um grupo pouco conhecido que surgiu a partir de uma dissidência do Partido Bahujan Samajawadi, de inclinação socialista. "Isso", disse ele, apontando para Lili, "será uma mudança radical!"
Ela sorriu um sorriso largo em reconhecimento e começou a desfiar uma longa lista de queixas relacionadas aos preços de água e da energia elétrica, à corrupção, à educação e à criação de empregos.
Ao contrário de alguns dos eunucos que vivem em sua comunidade, Lili foi castrada tardiamente, de modo que a voz dela é um pouco rouca --mas ela é capaz de projetar uma altivez firme e bem penteada, como se fosse uma Margaret Thatcher mal vestida.
"Se as pessoas estivessem felizes com o governo, eu não teria nenhuma chance", disse ela com naturalidade. "Moralmente, os eunucos são melhores do que as outras pessoas. Nós somos como mendigos. Somos como santos. Nós dançamos. Nós tocamos bateria. Nós compartilhamos a felicidade das pessoas. Este é o nosso lugar."
Os eunucos começaram a surgir como coadjuvantes na política indiana mais de uma década atrás. No início, as suas candidaturas pareciam ser um golpe, uma forma criativa de expressar desprezo tanto pelo Partido do Congresso quanto pelo partido da oposição, o BJP. Mas, em seguida, impulsionados pela raiva da população contra os privilégios das castas superiores e a corrupção, alguns eunucos começaram a ganhar as eleições e a tirar proveito dos assentos reservados para as mulheres e as castas oprimidas.
Os eunucos da Índia são párias que normalmente vivem separados de suas famílias em comunidades hierárquicas. Mas eles também dispõem de um espaço raro na vida pública --como adultos que são livres de constrangimentos sociais, como bobos na corte de um rei.
Quando uma família está comemorando um casamento ou o nascimento de uma criança, os eunucos aparecem para dançar em troca de dinheiro, e acredita-se que suas bênçãos conferem fertilidade. Quando contrariados, especialmente em relação a questões de pagamento, eles podem ser vingativos e passam a vomitar maldições e a ameaçar se despir até que o alvo de seus ataques ceda.
Cada vez que um eunuco ganha uma eleição, ele é alçado às manchetes nacionais --mas as coisas nem sempre correm bem depois disso.
Kamla Jaan, que venceu uma eleição para prefeita na cidade de Katni em 2001, imediatamente ridicularizou o conselho do empresário que patrocinou sua campanha quando assumiu o cargo.
"Nós não conseguimos controlá-la", disse o empresário na época. "Ela é completamente imprevisível. E as pessoas estão com medo de ofendê-la, pois ela pode ter um comportamento abusivo."
Jaan foi afastada do cargo dois anos depois, após um tribunal ter decidido que ela estava ocupando ilegalmente um posto reservado para uma mulher. Outro prefeito eunuco foi afastado do cargo pelo mesmo motivo em 2009.
Shabnam Mausi, que em 1998 se tornou o primeiro eunuco a ocupar um cargo de governador de Estado na Índia, foi tratada como uma celebridade, mas, desde então, perdeu o rumo, conseguindo apenas 118 votos em uma eleição realizada no ano passado, de acordo com o "The Times of India". Elavarthi Manohar, ativista que atua na defesa de direitos em Bangalore, disse que as esperanças dos ativistas de que Mausi defenderia a ampliação das liberdades para as minorias sexuais foram dolorosamente frustradas.
Segundo Manohar, em vez de Mausi defender os direitos das minorias, ao assumir o poder ela passou a representar uma tradição profundamente conservadora e hierárquica, que data da era Mughal (que se estendeu do século 16 ao 19). A hierarquia protegia os eunucos, mas também controlava seu comportamento ao ameaçá-los com punições severas e impor proibições rigorosas quanto ao uso de roupas masculinas, ao consumo de carne de porco ou a relações sexuais.
"Ela é considerada uma grande pessoa na hierarquia dos eunucos", disse Manohar. "Mas os direitos humanos dentro de seu próprio grupo familiar definitivamente não fazem parte de sua agenda".
Entre os improváveis aliados políticos de Lili está Sunita Kogra, sua esposa, que atualmente cria os três filhos do casal. Durante a entrevista, Sunita olhou para um retrato tirado em um estúdio profissional de fotografia quando Lili ainda era um homem chamado Ramesh Kumar e usava mocassins brancos pontudos e um bigode exuberante.
"Antes", disse ela, "essa era a minha vida".
Sunita foi filosófica quando perguntada sobre a transformação de seu marido, que, segundo ela, aconteceu há quatro anos e contra a sua vontade. De acordo com ela, Ramesh trabalhava tocando bateria com uma trupe de eunucos e estava sendo sugado cada vez mais pelas disputas internas do grupo, até que um dia ele foi sequestrado, passou por uma cirurgia e retornou como um deles.
"Ele é, basicamente, um homem simples. Mas alguém o chamou e ele foi", disse ela. "Agora, ele é um homem mudado, pois vive com os eunucos. Sim, ele é uma mulher".
Sunita suspira.
"Foi um incidente muito chocante", diz ela. "Mas o que se pode fazer?"
Tradutor: Cláudia Gonçalves

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