Liz Alderman - NYT
Paulo Nunes dos Santos/The New York Times
Martin
Brennan com a filha e a mulher, Yvonne Carning, em Dublin. Ele diz que
"não sobra nada" de dinheiro para a família após o pagamento das contas
Nos raros dias em que John Donovan visita o centro de Dublin, a
atmosfera é agitada: as ruas estão cheias de pedestres. Placas de
"vendido" cobrem os prédios georgianos de tijolos que estavam encalhados
no mercado há anos. Nos Silicon Docks, um centro onde Google, Facebook e
outras empresas de tecnologia estão aglutinadas, um grande número de
táxis faz fila para passageiros fáceis.
Certamente parece que a
Irlanda está se recuperando do quase colapso econômico. E nesta semana a
Irlanda será tecnicamente o primeiro dos países europeus mais atingidos
pela crise a sair do programa internacional de resgate financeiro.Mas, no subúrbio de Shankill onde vive Donovan, 55, a agitação econômica está ausente. Muitos de seus vizinhos mal conseguem sobreviver. Ele se mudou para o pequeno chalé de sua mãe depois que sua empresa de ferragens quebrou durante a crise. Com a erosão de suas magras economias, ele começou a caçar pombos para comer e os assa ao ar livre para reduzir sua conta de gás e de mercado.
"Eu faço isso para viver", ele disse. "O povo irlandês suportou um período horrível. O governo precisa tirar o pé do pescoço da nação."
O severo programa de austeridade do governo irlandês foi uma condição para o empréstimo de 67,5 bilhões de euros que recebeu em meio à séria crise bancária. Mas em parte devido aos duros cortes, a Irlanda recuperou a confiança dos investidores e não mais precisará contar com empréstimos estrangeiros. Ela agora pode tomar empréstimos nos mercados financeiros a taxas baixas de juros. Mas ela ainda precisa quitar os empréstimos que recebeu, um processo que poderá levar décadas.
Apesar de ter sido doloroso para os cidadãos irlandeses, é um feito que os líderes europeus estão saudando como um sinal de que a Europa está superando o pior de uma crise de cinco anos. E com Grécia, Portugal e Chipre ainda lutando para sair de seus resgates multibilionários, a Irlanda está sendo exibida como um símbolo da recuperação.
Os investidores estrangeiros estão impressionados com a capacidade da Irlanda de melhorar suas finanças. Os juros sobre seus títulos de 10 anos caíram de 14,5% para 3,5%. As manchetes nos jornais anunciam centenas de novos empregos semanalmente, especialmente em tecnologia. Uma pequena recuperação está até mesmo ocorrendo no setor de construção, que implodiu quando a economia do Tigre Celta ruiu.
Mas o rigor necessário para chegar até aí é doloroso. O governo cortou 30 bilhões de euros em gastos, quase 20% do produto interno bruto, em um dos maiores programas de austeridade já adotados. Novos impostos foram introduzidos. Os salários dos funcionários públicos foram reduzidos em cerca de 20%, além de reduções no seguro desemprego e benefícios de bem-estar social. A conta do resgate dos bancos da Irlanda foi de quase 10 mil euros para cada cidadão irlandês.
"A Irlanda é o mais próximo de uma história de sucesso que os líderes europeus têm", disse Simon Tilford, o economista-chefe do Centro para Reforma Europeia, em Londres. "Mas ela realmente não resiste a uma análise, porque houve uma queda imensa na economia doméstica e nos padrões de vida."
Martin Brennan ganha 9,50 euros por hora limpando um hospital próximo de sua casa em Drimnagh, um subúrbio operário de Dublin, e sua esposa ganha 380 euros trabalhando três dias por semana em um emprego administrativo na universidade. Após comprarem alimentos e pagarem as contas, sobra muito pouco dinheiro para gastar para sua família de quatro. Com os impostos sobre imóveis e renda ligados ao resgate, "não sobra nada", ele disse.
Quase todas as pessoas que os Brennans conhecem devem mais em hipoteca do que o valor de seus imóveis. Vários vizinhos estão desempregados, incluindo um homem que foi recentemente demitido com 11 outros em uma empresa familiar que faliu. Martin Brennan se arrepiou enquanto falava sobre como vários funcionários do hospital passaram a se alimentar no sopão comunitário.
"As pessoas estão jantando cereais matinais", ele disse. "Os economistas dizem que é uma lenda urbana. Pode dizer a eles que é real."
Essas dificuldades podem persistir por muito tempo após a saída da Irlanda do programa de resgate. Como ainda será necessário rigor financeiro para a manutenção do crédito da Irlanda, o primeiro-ministro Enda Kenny está planejando promover 2,5 bilhões de euros em cortes adicionais de gastos e novos impostos no ano que vem.
O ministro das Finanças, Michael Noonan, disse que a Irlanda está tentando "fazer a economia crescer, gerar empregos e lidar com o nível inaceitavelmente alto de desemprego". O crescimento deverá se recuperar para 1,8% em 2014. O desemprego ainda é alto em 12,8% no trimestre, mas está caindo após a economia ter adicionado 58 mil vagas de trabalho neste ano.
Mesmo assim, a Irlanda precisa manter as metas fiscais, ele disse. A dívida, em 123% do produto interno bruto, deve cair assim que a Irlanda sair do programa de resgate. O déficit, que encolheu de 30% do PIB em 2010 para 7,5%, também deve continuar em declínio.
Enquanto as medidas de austeridade prosseguem, o número de pessoas carentes saltou. O número de moradores de rua subiu quase 20% desde 2010. Um estudo da Growing Up na Irlanda, que entrevistou 11 mil famílias com crianças pequenas, apontou que 67% não podem arcar com necessidades básicas e estão com contas, aluguéis e hipotecas atrasadas.
O consumo está estagnado e dois terços dos proprietários de imóveis deixaram de pagar sua hipoteca no prazo nos últimos dois anos, segundo o banco central. Metade de todos os empréstimos para pequenas e médias empresas também está atrasado.
Mais de 200 mil habitantes da população de 4,6 milhões da Irlanda emigraram desde 2008. O desemprego entre os jovens é de 28%. Mais de 60% das pessoas que procuram emprego estão sem trabalhar há um ano ou mais. E 20% das crianças atualmente vivem em lares onde nenhum dos pais trabalha, a taxa mais alta na União Europeia.
A austeridade está espremendo a maioria das pessoas que Donovan conhece.
"O governo, em um momento de loucura, sobrecarregou cada homem, mulher e criança com uma dívida da qual poderemos nunca escapar", ele disse.
Brennan, o funcionário do hospital, pensa o mesmo. Ele sabe que o governo está se esforçando para consertar a economia, mas ele não espera ver alguma melhora em seu tempo de vida.
"Nós já tentamos viver cinco anos sem nada", disse Brennan. "Se endurecerem as coisas ainda mais, isso nos matará."
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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