quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

No leste da Ucrânia, uma mensagem para os manifestantes: parem
Andrew Roth - NYT
Enquanto os operários entravam na Usina Metalúrgica de Donetsk, uma ampla usina do período soviético que os moradores do coração industrial do país chamam de DMZ, eles tinham uma mensagem para os estudantes e líderes de oposição na praça da Independência, na capital, que pedem pela integração com a Europa e condenam a recente repressão pela polícia: voltem ao trabalho.
Em uma frígida manhã sob o zumbido constante das colhedoras, os operários chamavam os protestos que tomaram Kiev de "uma confusão", "caos" e "a desgraça de toda a Ucrânia".
"A resposta é simples: peguem alguns tanques e os expulsem da praça", disse Viktor Ruzienko, um veterano de 30 anos da usina, que estava saindo do turno da noite para o frio da manhã. "Mesmo durante o comunismo eu nunca vi algo tão vergonhoso."
Importantes diplomatas ocidentais e líderes da oposição pedem ao presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, que respeite o sentimento popular e assine um acordo de associação com a União Europeia. Mas em um país profundamente dividido entre o oeste pró-Europa e o leste pró-Rússia, isso representa apenas metade da história. Aqui no leste da Ucrânia, a base de apoio de Yanukovich, as pessoas veem um futuro diferente: um fim rápido dos protestos e um acordo para ingresso na união aduaneira do presidente da Rússia, Vladimir Putin, que uniria mais estreitamente a Ucrânia à Rússia, Belarus e Cazaquistão.
O cabo de guerra entre a Europa e a Rússia em torno do futuro da Ucrânia tem incitado fortes paixões aqui, assim como o temor de que o país possa se dividir em um conflito aberto.
"É assim que funciona na Ucrânia: o leste ganha o dinheiro e o oeste o devora", disse Sergei Yermolenko, um programador de 35 anos que já trabalhou para a empresa ferroviária estatal. Ele apoiou plenamente o esforço do presidente para desocupação da Praça da Independência na quarta-feira, ele disse, e chamou a demolição da estátua de Lênin pelos manifestantes de "puro vandalismo".
"Nossa indústria é pesada, são as ferrovias, as fábricas", disse Yermolenko. "Nós precisamos da Rússia mais do que da Europa."
Em Kiev na quinta-feira, Catherine Ashton, a diplomata-chefe da União Europeia, disse aos repórteres que Yanukovich "pretende assinar o acordo de associação" com a UE, o que representaria a mais recente reviravolta de Yanukovich. Mas a tendência dos analistas é ignorar as garantias dele, notando que ele já fez essa promessa antes e alertando que o impasse pode persistir por algum tempo.
Desde que Yanukovich recuou dos acordos com a Europa no mês passado e cessou as negociações com o Fundo Monetário Internacional para um pacote de empréstimo para impedir a falência, a Ucrânia negocia com a Rússia uma ajuda econômica potencial. Yanukovich deverá se encontrar com Putin na semana que vem.
Mas os rumores de que a Ucrânia poderia ingressar na união aduaneira inflamaram ainda mais os manifestantes em Kiev, e as autoridades negaram que essa negociação estava em andamento. Diplomatas ocidentais que se encontraram com Yanukovich disseram que ele continua insistindo que assinará futuramente os acordos com a Europa, algo que ele vem dizendo desde sua decisão abrupta de não assiná-los.
Em Bruxelas, o Parlamento Europeu emitiu uma declaração pedindo à União Europeia que inicie uma missão de mediação visando uma "mesa redonda de negociação entre o governo, a oposição democrática e a sociedade civil, para assegurar um resultado pacífico para a atual crise".
Os manifestantes antigoverno prosseguem na ocupação da Praça da Independência de Kiev, com mais manifestantes chegando de todo o país de ônibus, particularmente do oeste da Ucrânia. Em um trecho cercado do vizinho Parque Mariinsky, vários milhares de manifestantes pró-governo se uniram sob forte proteção policial.
Há poucos sinais de que a turbulência política que tomou conta de Kiev nas últimas semanas esteja se espalhando aqui na região de Donbass, onde Yanukovich nasceu e serviu por cinco anos como governador e um período em uma colônia penal por assalto, nos anos 70, enquanto a Ucrânia ainda fazia parte da União Soviética.
Não há barricadas no centro da cidade. Uma estátua de Lênin permanece intocada em uma praça central.
Alexander A. Lukianchenko, o prefeito de Donetsk e membro do Partido das Regiões de Yanukovich, enfrentou tanto a Revolução Laranja e o retorno de Yanukovich ao poder em seus 11 anos no cargo. Ele riu das declarações dos líderes do protesto e de simpatizantes, como o prefeito de Lviv, que disseram que a polícia enfrentaria o governo federal se ele tentasse ocupar a cidade, uma ação que levou milhares de manifestantes à Praça da Independência nos fins de semana para protestar.
"Eles não conseguirão nada com seus métodos", disse Lukianchenko em uma entrevista, falando sobre os pedidos dos manifestantes para renúncia de Yanukovich. "Haverá apenas consequências irreparáveis" para a Ucrânia.
Pequenos protestos em apoio ao levante na Maidan, como a Praça da Independência de Kiev costuma ser chamada, atraíram cerca de 100 manifestantes, uma manifestação que Lukianchenko chamou zombeteiramente de "nossa pequena Maidan".
Muitos veem os choques em Kiev como uma briga entre o clã político de Yanukovich e membros ambiciosos da oposição, tentando chegar ao poder explorando os movimentos estudantis.
Tatiana Kolomichenko, 55 anos, disse que solidariza com os estudantes manifestantes, que ela chama de "fantoches" da oposição, mas que também não apoia Yanukovich e que não votou nas últimas eleições.
"Eu não acredito em política", disse Kolomichenko, enquanto fazia uma pausa na remoção da neve do lado fora de sua loja de aspiradores de pó, no centro da cidade. "E também ensinei meus filhos a não acreditarem em política."
Na Universidade Técnica Nacional de Donetsk, onde um retrato de Yanukovich está pendurado ao lado de outros ex-alunos distintos sob uma placa em inglês que diz "Doutores Ilustres", muitos estudantes dizem que nunca consideraram se juntar aos seus colegas nas barricadas em Maidan.
"Se conseguirem tirar Yanukovich, haverá um novo Yanukovich depois dele", disse Tigran Naltakian, um estudante de engenharia mecânica. "Não há mais heróis populares na política ucraniana."
O verdadeiro apoio de Yanukovich, ele disse, está entre os grandes empresários e políticos de sua região natal de Donetsk.
"Sem Donetsk", disse Naltakian, "ele não é ninguém".
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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