terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Ucranianos bloqueiam prédios do governo
Manifestantes tomam praça e fazem barricadas em Kiev contra decisão do presidente de se afastar de bloco europeu
Presidente russo afirma que protesto é tentativa de abalar 'autoridades legítimas'; ucraniano passará 4 dias na China
LEANDRO COLON - FSP 
O bloqueio do acesso a ruas de Kiev, incluindo barricadas na sede do governo e a tomada da praça da Independência por milhares de pessoas, acirrou a crise política na Ucrânia e provocou a reação do governo russo.
O país é palco de protestos desde a semana passada, após o governo, que é alinhado à Rússia, ter congelado tratativas para aderir à União Europeia. Parte expressiva da população, sobretudo na capital, é ocidentalizada e quer aproximação com a UE.
Ontem, o presidente Vladimir Putin saiu em defesa do colega ucraniano Viktor Yanukovich, um aliado antigo.
"Esta é uma tentativa de abalar as atuais e, quero enfatizar, legítimas autoridades no país", afirmou Putin.
Sob pressão desde o fim de semana, após desistir do acordo com os europeus, Yanukovich avisou que viajaria hoje para a China, onde pretende ficar por quatro dias.
O clima, porém, não deve se acalmar com sua ausência. A oposição cobra sua renúncia e promete manter os protestos --e não só na Ucrânia. Desde domingo, por exemplo, a embaixada em Londres concentra manifestantes que defendem a aproximação da Ucrânia com o bloco europeu.
A crise pode acirrar ainda mais o desgaste de Putin com a UE. O presidente da Comissão Europeia, braço executivo do bloco, José Manuel Durão Barroso, conversou ontem com Yanukovich e disse que uma delegação deve ser enviada a Kiev nos próximos dias para negociar.
O principal porta-voz da oposição nas ruas de Kiev é o pugilista peso-pesado Vitali Klitschko, que já se lançou candidato a presidente em 2015. Outra opositora do governo é a ex-premiê Yulia Timoshenko, presa desde 2011, acusada de abuso de poder. A oposição afirma que os russos estariam ameaçando o governo ucraniano por tentar se aliar ao bloco europeu.
Ao se manifestar pela primeira vez sobre a situação, Yanukovich disse que qualquer "paz ruim" é melhor que uma "boa guerra". Ele descartou, por ora, a decretação de um estado de emergência.
BARRICADAS
As redes sociais têm sido usadas para organizar barricadas pela cidade. No domingo, ao menos 100 mil pessoas cobraram Yanukovich. Ontem, os manifestantes usaram lixeiras, contêineres de metal e até jarros de flores para bloquear o acesso à sede do governo e impedir a entrada do premiê Mykola Azarov.
Segundo as autoridades locais, 150 policiais se feriram e 165 manifestantes também se machucaram --109 desses foram parar no hospital.
A Ucrânia não via protestos como os dos últimos dias desde 2004, quando o próprio Yanukovich foi deposto na chamada Revolução Laranja. Em 2010, ele venceu as eleições contra Timoshenko. 

País vem se decepcionando com políticos desde colapso da URSS 
IAN TRAYNOR - "GUARDIAN" 
Não é com frequência que a União Europeia serve de causa a um tumulto. Mas para centenas de milhares de pessoas, na maioria jovens, nas ruas de Kiev, a UE parecia uma causa digna de luta.
Para os manifestantes, a Ucrânia perdeu seu encontro com o destino. Após cinco anos negociando uma associação com a UE, o presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, congelou o acordo e alegou estar sofrendo pressão irresistível da parte da Rússia.
Até a semana passada, parecia que a Ucrânia estava tendo de escolher entre o Ocidente e o abraço apertado do urso russo. No domingo, porém, o foco passou à derrubada do presidente e à convocação de eleições antecipadas.
A Ucrânia é escandalosamente mal servida por suas elites políticas desde o colapso da União Soviética. O desgoverno e a corrupção descontrolada do presidente pós-soviético Leonid Kuchma resultaram na Revolução Laranja, uma década atrás.
O homem que saiu vitorioso da eleição que a revolução causou, Viktor Yushchenko, se provou uma grande decepção. A principal rival de Yanukovich, Yulia Timoshenko, que está presa, tampouco foi um anjo em seu período como primeira-ministra.
Yanukovich levou o país à beira do colapso financeiro enquanto seus comparsas adquirem riquezas obscenas. Seu principal objetivo é manter o poder na próxima eleição, em 2015. Parece calcular que o presidente russo, Vladimir Putin, é a melhor aposta para atingir esse objetivo.
Não está claro se a energia dos protestos poderá ser mantida. A mais formidável oponente de Yanukovich está na prisão --ele tem medo de Timoshenko. Putin pode ajudá-lo no curto prazo, mas o preço será alto e arruinará as aspirações dos manifestantes.

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