Sede de Europa
GILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo
A Europa se surpreendeu. Porque existem pessoas, até
povos, que a adoram. Isso não ocorre comumente. Com a crise da dívida, a
União Europeia recebe, há quatro anos, mais insultos do que flores.
Hoje, nos 28 países da UE, as pessoas se habituaram a culpar a Europa
por tudo que ocorre de ruim: desemprego, desigualdades, injustiças.
Mas agora há uma população que não faz parte da União Europeia, mas
aclama loucamente a UE, exorta seus méritos, enfrenta policiais armados
até os dentes e grita para o mundo seu desejo de Europa. Trata-se da
população da Ucrânia, cuja capital, Kiev, há dois dias cobre-se de
bandeiras azuis com as cores da UE.
Contudo, a Ucrânia oficial, do presidente Viktor Yanukovich, traçou
em colaboração com o presidente russo, Vladimir Putin, um outro cenário.
Juntos, decidiram vincular a Ucrânia não à UE, mas à Rússia. Putin
manobrou brilhantemente. Tudo foi previsto, incluindo a enorme ajuda
financeira e acordos econômicos vantajosos para uma Ucrânia arruinada.
Do ponto de vista de Putin, o negócio "já estava fechado". Mas uma parte
dos ucranianos não está disposta a aceitá-lo.
É isso que fascina na História. Ela faz o que lhe dá na cabeça. Foi
dado um itinerário, mas, no último momento, um ator imprevisto entrou em
cena e recusou o roteiro elaborado pelos políticos. E esse ator de
último minuto é uma parte do povo ucraniano, que prefere uma outra
alternativa.
Foi isso que ocorreu em Kiev. As pessoas saíram às ruas para dizer
que amavam a União Europeia. A polícia investiu contra elas. As imagens
da violência rodaram o mundo pelo Facebook e o Twitter, os pró-europeus
perceberam que eram centenas de milhares e é assim que começam as
revoluções.
E essa "revolução" irá até o fim? Podemos imaginar que Putin e seu
aliado ucraniano não permanecerão inertes. Para Moscou, a Ucrânia é uma
"pepita de ouro". Arrancada agonizante há 22 anos da União Soviética, um
país outrora opulento e hoje arruinado por força da corrupção e das
idiotices (tanto da parte de pró-russos quanto dos pró-europeus), a
Ucrânia é uma peça fundamental do quebra-cabeças geopolítico imaginado
por Putin.
É preciso saber que ela tem uma longa história em comum com a Rússia.
A Ucrânia foi mesmo o berço, a célula que deu origem à nação russa,
pois Kiev foi na verdade a primeira capital da Rússia, no ano 882. Mas
em seguida o país hesitou entre seus vizinhos do oeste, do norte e do
leste. Na confusão que se esboça hoje, encontramos esses tropismos
históricos: o oeste e o norte da Ucrânia formam o núcleo europeu. O
leste está vinculado à Rússia.
E a União Europeia? Durante os meses, anos, em que Putin preparou seu
golpe para atrair a Ucrânia a sua órbita, Bruxelas tinha os olhos fixos
em outro lugar. Passividade total. Os milhares de funcionários
internacionais de alto escalão que proliferam em Bruxelas não viam nada.
Estavam muito ocupados decidindo sobre a abertura das lojas europeias
aos domingos. Não tinham um minuto para pensar e perceber que Putin
preparava o tobogã ao pé do qual a Ucrânia cairia na zona de influência
russa.
A vigorosa manifestação dos ucranianos favoráveis à Europa despertará
os letárgicos de Bruxelas? Não será tarde demais? É difícil saber o que
a Europa poderá fazer para conjurar o desastre ucraniano.
TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
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