terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Alemanha quer status de Patrimônio da Humanidade para sua cerveja
David Crossland - Der Spiegel 
As cervejarias da Alemanha se orgulham tanto de sua lei de pureza da cerveja de 500 anos, que declara que ela deve consistir apenas de água, malte, lúpulo e levedura, que desejam que ela integre a lista do Patrimônio da Humanidade da Unesco –ao lado das pirâmides, do Taj Mahal e da dança flamenca.
Antes da lei alemã de pureza da cerveja, ou "Reinheitsgebot", entrar em vigor em 1516, os aditivos usados para dar sabor às cervejas pareciam uma lista de compras de feiticeira, e alguns eram simplesmente venenosos. Era de conhecimento que ela podia até mesmo causar alucinações.
A "Reinheitsgebot" inicialmente se aplicava apenas à região da Baviera e se tornou parte da lei nacional em 1906. Ela é a lei nutricional mais antiga do mundo ainda em vigor e declara que a cerveja deve conter apenas água, malte, lúpulo e levedura.
A entidade que representa as 1.300 cervejarias do país anunciou na segunda-feira que deseja que a lei receba o status de Patrimônio da Humanidade pela Unesco, para ressaltar seu tremendo impacto sobre a renomada cultura da cerveja da Alemanha e para o desenvolvimento da bebida que traz tanta alegria para muitos.
"A Alemanha deve sua reputação incontestável como nação cervejeira à 'Reinheitsgebot'", disse o presidente da Federação das Cervejarias Alemãs, Hans-Georg Eils, em uma declaração na segunda-feira. "Ela garante a pureza, qualidade e a digeribilidade das cervejas."
A Federação disse que seu pedido foi baseado em dois estudos independentes da Universidade de Bayreuth e da Universidade Técnica de Munique, ambas na Baviera, lar de cerca da metade das cervejarias do país.
O professor Franz Meussdörffer, um bioquímico que é autor do estudo da Universidade de Bayreuth, disse estar confiante de que a "Reinheitsgebot" entrará na lista.
"Ela assegurou que a cerveja, como gênero alimentício, fosse de confiança na Alemanha. A 'Reinheitsgebot' criou uma estrutura imensa na qual essa enorme variedade alemã de cervejas pôde se desenvolver. Ela também levou a Alemanha a se concentrar nas matérias-primas e a gerar uma cultura acadêmica nesse campo que é única no mundo."
A Alemanha permite a importação de cervejas estrangeiras não produzidas segundo a lei de pureza. Mas todas as cervejas produzidas na Alemanha devem segui-la, a menos que seja para exportação para países com padrões menos exatos.

Outros países à frente na corrida cultural

Até recentemente, a ONU concedia o status de Patrimônio da Humanidade apenas a locais e monumentos. Mas agora também é possível incluir tradições, conhecimento e artes sob a chamada Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, que entrou em vigor em 2006.
A Alemanha a ratificou apenas neste ano e está tentando tirar o atraso em relação a países como a Espanha, que incluiu o Flamenco na lista em 2010, ou a França, que teve sucesso em 2009 em obter status de Patrimônio da Humanidade para as estruturas de madeira francesas, um método de construção tridimensional usado na França desde o século 13.
Outros exemplos que entraram na lista incluem o Krakelingen e Tonnekensbrand, as festas do pão e fogueira de final de inverno em Geraardsbergen, Bélgica, e as danças Lakalaka e discursos cantados de Tonga.
A lei de pureza está entre as 34 tradições que a Alemanha planeja apresentar. Elas incluem as procissões de mineiros na região dos Montes Metalíferos ou a orquestra Staatskapelle Dresden, fundada em 1548.
Os pedidos precisam receber aprovação do governo antes de serem submetidos à Unesco, que deverá passar cerca de dois anos os analisando.
Se for bem-sucedido, ela poderia ser adicionada à lista do Patrimônio da Humanidade em 2016, no 500º aniversário da lei que entrou em vigor por ordem de dois duques bávaros, Wilhelm 4º e Ludwig 10º.

Ingredientes venenosos

"Mesmo em 1516, a proteção ao consumidor era um aspecto importante", disse a Federação. "A 'Reinheitsgebot' visava proteger os consumidores de cerveja do uso de ingredientes baratos e às vezes nocivos à saúde, assegurando que apenas matérias-primas de alta qualidade fossem usadas."
A Baviera foi a primeira região a adotar padrões de pureza da cerveja. Várias cidades alemãs já faziam isso. Antes dos aditivos serem proibidos, os temperos usados formavam uma lista de tirar o apetite: vesícula de boi, meimendro venenoso, casca de carvalho e folhas de zimbro, para citar apenas alguns.
Mas o professor Meussdörffer disse que seria errado condenar todas as técnicas de produção de cerveja que antecederam a lei.
"Eu me recuso a dizer que tudo que havia antes era ruim. Muitos dos ingredientes usados hoje são conhecidos como venenosos, mas as pessoas na Idade Média tinham um conhecimento muito maior desses ingredientes, como o meimendro, por exemplo. Ele é corretamente classificado como extremamente venenoso, mas Hildegard von Bingen encontrou aplicações para ele." A medicina estava entre as muitas competências de santa Hildegard, uma abadessa beneditina que viveu no século 12 e foi saudada como filósofa, visionária e escritora.
Além disso, a planta milefólio, outro aditivo usando antes da "Reinheitsgebot", também tinha qualidades medicinais. Ela também é conhecida como Achillea, porque os soldados de Aquiles tratavam seus ferimentos com ela.
A Federação de Cervejarias sem dúvida espera pela grande publicidade que a designação de Patrimônio da Humanidade traria. Ela disse que a lei levou ao desenvolvimento de uma arte cervejeira de reputação mundial ao longo dos séculos.
"Todo dia, mais de 1.300 cervejarias alemãs criam uma diversidade única em todo o mundo de mais de 40 tipos diferentes e cerca de 5.000 marcas individuais de cerveja", diz a Federação de modo efusivo.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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