Walter Oppenheimer - El Pais
O referendo sobre a independência da Escócia em 18 de setembro de 2014 poderá ser decidido em lugares como Clydebank, que já foi um grande centro industrial próximo de Glasgow e hoje em dia é um povoado moribundo cujos habitantes não sabem muito bem o que é pior, se o declínio atual ou a aventura de se meter em territórios ainda não explorados, separando-se do Reino Unido. Fazem parte desse grande bolsão de indecisos que podem reverter as pesquisas e dar a vitória aos independentistas do Partido Nacional Escocês (SNP na sigla em inglês).
Na terça-feira passada (26), quando o principal ministro escocês e líder do SNP, Alex Salmond, apresentou ao mundo seu manual de 649 páginas (mais 18 de introdução), detalhando o caminho a seguir para que a Escócia se transforme em um país independente, tinha um olho voltado para pessoas como as que vivem em Clydebank. São sobretudo eleitores trabalhistas da vida toda que se sentem decepcionados depois da longa etapa centrista de Tony Blair e seu Novo Trabalhismo. Operários que dificilmente votariam no Partido Conservador, que não confiam nos liberal-democratas e que se sentem cada vez mais identificados com o SNP, sobretudo na hora de votar nas eleições para o Parlamento da Escócia.
São pessoas que se sentem muito escocesas, mas também
britânicas, talvez porque seu bem-estar material tenha dependido
sobretudo da grande indústria como os estaleiros. Gente que perdeu o
bem-estar de tempos passados e que agora pode ser tentada a apoiar a
aventura da independência para tentar encontrar um caminho melhor.
Sabendo que o argumento econômico é a chave do referendo, Salmond fugiu da retórica nacionalista, deu por resolvidos os temas mais espinhosos --como a adesão à UE e à Otan, a moeda, os controles de fronteira-- e se concentrou na economia, fazendo promessas mais próprias de um programa eleitoral que de um catálogo sobre como chegar à independência. O importante para ele é que os escoceses não vejam a independência como um problema, e sim como uma oportunidade.
Uma oportunidade para lugares como Clydebank, um povoado de 29 mil habitantes (45 mil incluindo os arredores) na periferia noroeste de Glasgow, às margens do rio Clyde, que começou a ser formada em 1870, quando os estaleiros da grande capital econômica da Escócia começaram a ficar pequenos e a expandir-se rio abaixo. Hoje resta muito pouco daquela época dourada. O mais chamativo, o grande guindaste Titan, construído em 1907 e restaurado um século depois para ser transformado em atração turística, porque não há mais barcos para construir. Aqui havia estaleiros gigantes, como o John Brown & Co, e daqui saíram navios tão famosos quanto o Lusitania, lançado em 1907 e durante algum tempo o maior barco do mundo, naufragado por um submarino alemão em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Ou o Queen Mary (1934), o Queen Elizabeth (1938) e o Queen Elizabeth 2 (1967), que a cidade esperava ver atracado para sempre na margem do Clyde quando foi retirado de serviço, mas a empresa proprietária acabou vendendo-o a Dubai como um hotel flutuante.
Nos bons tempos havia a Singer, grande fabricante americana de máquinas de costura que chegou a empregar 11 mil trabalhadores em Clydebank. A importância que chegaram a ter a Singer e os estaleiros foi tal que faziam parte do escudo de armas que a municipalidade de Clydebank adotou de maneira oficiosa em 1892. Um escudo de armas que ainda pode ser visto nas ruínas de um velho pavilhão industrial logo atrás do vetusto edifício da prefeitura. E, em uma esquina, uma grande placa com os nomes dos caídos nas duas guerras mundiais: cerca de 1.000 na primeira e uma centena na segunda, apesar de a cidade ter sido bombardeada pela aviação alemã para destruir sua indústria.
Hoje, a rua principal de Clydebank é o fiel reflexo de sua decadência. Ali está o inevitável centro de acolhimento do Exército da Salvação. Um supermercado de congelados Iceland, cujo grande tamanho contrasta com a única loja de alimentos frescos que se vê: um minúsculo açougue e peixaria ao mesmo tempo. Há até três casas de penhores, uma loja de produtos de segunda mão da British Heart Foundation, o popular forno de empadas Greggs, as inevitáveis casas de apostas, alguns dos grandes armazéns tristes formados por várias barracas de feira, uma das várias cooperativas que há no povoado, três agências bancárias... E no final, na esquina, antes de chegar ao canal Forth-Clydebank pelo qual antigamente circulava a riqueza em forma de passageiros e mercadorias, está o Café Roma, Restaurante, Grill, Pizzeria, com o qual o povoado se dá um banho de cosmopolitismo. Do outro lado do canal ergue-se um centro comercial um pouco mais moderno, como que insinuando que os bons tempos ainda podem voltar.
Em Clydebank, um apartamento de dois quartos custa em média 83 mil libras (R$ 300 mil), entre três e quatro vezes menos que nos bairros modestos de Londres e 20 vezes menos que no centro da capital. Na cidade, que nos anos 1950 recebia a glamurosa atriz de Hollywood Dorothy Lamour e foi honrada várias vezes com a visita da rainha Elizabeth, hoje as coisas "vão mal", explica Katy, uma mulher de 60 anos que lembra com melancolia os bons velhos tempos.
Em que Katy votará no referendo? "Ainda não decidi", confessa. O que a preocupa é a economia. "Não tenho muita certeza de que teremos dinheiro para pagar as ajudas às crianças e tudo isso", diz, referindo-se a uma das promessas mais atraentes feitas na terça-feira por Alex Salmond. "De onde vai sair o dinheiro?", insiste Katy, e acrescenta que, se soubesse que não haverá problemas de dinheiro, votaria "na independência". "Isso, com certeza, porque sou escocesa", afirma.
"O argumento econômico está claramente do nosso lado", explica Anas Sarwar, 30, e desde 2010 deputado trabalhista por Glasgow central. É filho de Mohammad Sarwar, que em 1997 se transformou no primeiro muçulmano a chegar ao Parlamento de Westminster e que, em agosto, renunciou à cidadania britânica para se transformar no governador de Punjab, em seu Paquistão natal.
Sarwar, número dois do trabalhismo escocês, lidera em Glasgow a campanha do não à independência, uma plataforma aberta a diversas opções políticas sob o lema "Melhor juntos". Não acredita que a indiferença de uma parte do trabalhismo vá se transformar em celeiro de votos pela independência. "É importante levar em conta que há mais gente do SNP que vai votar não no referendo do que trabalhistas que vão votar sim pela independência. E isso demonstra que estamos ganhando o debate econômico, porque as pessoas não acreditam que as coisas vão melhorar se deixarmos o Reino Unido. As grandes conquistas do trabalhismo, como o sistema público de saúde (NHS), não foram feitas pensando na Escócia ou só para a Escócia. Foram feitas pensando em todo o Reino Unido", afirma.
O jovem deputado passou um mau momento em outubro, quando foi a Clydebank participar de um debate organizado pelos sindicatos sob o título "A classe operária deveria apoiar a independência?". Os assistentes mais radicais boicotaram com vaias constantes aqueles que, como Sarwar, se pronunciavam a favor da união e contra a independência. "O que aconteceu em Clydebank não é representativo do que os trabalhistas pensam", declara o deputado.
Mas alguns eleitores trabalhistas da vida toda pensam em apoiar a independência. Como John Holden, 67, que trabalha controlando o tráfego diante de uma escola e que renega os ingleses. "Acabaram com a indústria aqui", afirma. "Por mim podem ir embora. Com a independência as coisas irão muito melhor, porque teremos o petróleo e poderemos reavivar a indústria", diz. Mas admite que a independência não tem muitas possibilidades de ganhar: "Não parece. Está um pouco indefinido por enquanto... meio a meio...". "Eu sempre votei trabalhista. Quase sempre. E nunca votei conservador. Nunca, jamais", acrescenta ao se despedir.
Nem todos veem as coisas tão claramente. "Não tenho muita certeza se voto de uma forma ou de outra. Até setembro não decidirei o que vou fazer. A única certeza é que votarei", reconhece Jean, 84. De que precisa para se decidir? "Realmente não sei", ri.
Liam, 29, está escolhendo o que parece um anel de noivado diante da vitrine de uma joalheria. Ele sabe o que fará. "Por enquanto estou no lado do não, porque creio que estaremos melhor se não ficarmos na união. Embora haja aspectos da independência que me atraem, como não ter submarinos nucleares." Isso significa que ainda pode mudar seu voto? "Votarei não", afirma.
John, 57, carteiro desempregado há um ano, pensa o mesmo. "Sou contra a independência porque não creio que seja o melhor para nós. Mesmo que fosse economicamente viável, não sei se seria melhor ou não. Estou bastante de acordo que as coisas continuem como estão hoje", afirma.
Para Moira e Sophie, 18, o referendo não interessa. "Não vou votar. Não me importa", diz Moira. "Eu também não. Não vejo sentido na independência", acrescenta Sophie. Mas, se tem opinião, por que não vota? "Não sei...", admite. Alex Salmond se empenhou em conseguir que os maiores de 16 anos votem, mas as pesquisas dizem que os jovens não se interessam pelo referendo nem pela independência. Como Moira e Sophie...
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Sabendo que o argumento econômico é a chave do referendo, Salmond fugiu da retórica nacionalista, deu por resolvidos os temas mais espinhosos --como a adesão à UE e à Otan, a moeda, os controles de fronteira-- e se concentrou na economia, fazendo promessas mais próprias de um programa eleitoral que de um catálogo sobre como chegar à independência. O importante para ele é que os escoceses não vejam a independência como um problema, e sim como uma oportunidade.
Uma oportunidade para lugares como Clydebank, um povoado de 29 mil habitantes (45 mil incluindo os arredores) na periferia noroeste de Glasgow, às margens do rio Clyde, que começou a ser formada em 1870, quando os estaleiros da grande capital econômica da Escócia começaram a ficar pequenos e a expandir-se rio abaixo. Hoje resta muito pouco daquela época dourada. O mais chamativo, o grande guindaste Titan, construído em 1907 e restaurado um século depois para ser transformado em atração turística, porque não há mais barcos para construir. Aqui havia estaleiros gigantes, como o John Brown & Co, e daqui saíram navios tão famosos quanto o Lusitania, lançado em 1907 e durante algum tempo o maior barco do mundo, naufragado por um submarino alemão em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial. Ou o Queen Mary (1934), o Queen Elizabeth (1938) e o Queen Elizabeth 2 (1967), que a cidade esperava ver atracado para sempre na margem do Clyde quando foi retirado de serviço, mas a empresa proprietária acabou vendendo-o a Dubai como um hotel flutuante.
Nos bons tempos havia a Singer, grande fabricante americana de máquinas de costura que chegou a empregar 11 mil trabalhadores em Clydebank. A importância que chegaram a ter a Singer e os estaleiros foi tal que faziam parte do escudo de armas que a municipalidade de Clydebank adotou de maneira oficiosa em 1892. Um escudo de armas que ainda pode ser visto nas ruínas de um velho pavilhão industrial logo atrás do vetusto edifício da prefeitura. E, em uma esquina, uma grande placa com os nomes dos caídos nas duas guerras mundiais: cerca de 1.000 na primeira e uma centena na segunda, apesar de a cidade ter sido bombardeada pela aviação alemã para destruir sua indústria.
Hoje, a rua principal de Clydebank é o fiel reflexo de sua decadência. Ali está o inevitável centro de acolhimento do Exército da Salvação. Um supermercado de congelados Iceland, cujo grande tamanho contrasta com a única loja de alimentos frescos que se vê: um minúsculo açougue e peixaria ao mesmo tempo. Há até três casas de penhores, uma loja de produtos de segunda mão da British Heart Foundation, o popular forno de empadas Greggs, as inevitáveis casas de apostas, alguns dos grandes armazéns tristes formados por várias barracas de feira, uma das várias cooperativas que há no povoado, três agências bancárias... E no final, na esquina, antes de chegar ao canal Forth-Clydebank pelo qual antigamente circulava a riqueza em forma de passageiros e mercadorias, está o Café Roma, Restaurante, Grill, Pizzeria, com o qual o povoado se dá um banho de cosmopolitismo. Do outro lado do canal ergue-se um centro comercial um pouco mais moderno, como que insinuando que os bons tempos ainda podem voltar.
Em Clydebank, um apartamento de dois quartos custa em média 83 mil libras (R$ 300 mil), entre três e quatro vezes menos que nos bairros modestos de Londres e 20 vezes menos que no centro da capital. Na cidade, que nos anos 1950 recebia a glamurosa atriz de Hollywood Dorothy Lamour e foi honrada várias vezes com a visita da rainha Elizabeth, hoje as coisas "vão mal", explica Katy, uma mulher de 60 anos que lembra com melancolia os bons velhos tempos.
Em que Katy votará no referendo? "Ainda não decidi", confessa. O que a preocupa é a economia. "Não tenho muita certeza de que teremos dinheiro para pagar as ajudas às crianças e tudo isso", diz, referindo-se a uma das promessas mais atraentes feitas na terça-feira por Alex Salmond. "De onde vai sair o dinheiro?", insiste Katy, e acrescenta que, se soubesse que não haverá problemas de dinheiro, votaria "na independência". "Isso, com certeza, porque sou escocesa", afirma.
"O argumento econômico está claramente do nosso lado", explica Anas Sarwar, 30, e desde 2010 deputado trabalhista por Glasgow central. É filho de Mohammad Sarwar, que em 1997 se transformou no primeiro muçulmano a chegar ao Parlamento de Westminster e que, em agosto, renunciou à cidadania britânica para se transformar no governador de Punjab, em seu Paquistão natal.
Sarwar, número dois do trabalhismo escocês, lidera em Glasgow a campanha do não à independência, uma plataforma aberta a diversas opções políticas sob o lema "Melhor juntos". Não acredita que a indiferença de uma parte do trabalhismo vá se transformar em celeiro de votos pela independência. "É importante levar em conta que há mais gente do SNP que vai votar não no referendo do que trabalhistas que vão votar sim pela independência. E isso demonstra que estamos ganhando o debate econômico, porque as pessoas não acreditam que as coisas vão melhorar se deixarmos o Reino Unido. As grandes conquistas do trabalhismo, como o sistema público de saúde (NHS), não foram feitas pensando na Escócia ou só para a Escócia. Foram feitas pensando em todo o Reino Unido", afirma.
O jovem deputado passou um mau momento em outubro, quando foi a Clydebank participar de um debate organizado pelos sindicatos sob o título "A classe operária deveria apoiar a independência?". Os assistentes mais radicais boicotaram com vaias constantes aqueles que, como Sarwar, se pronunciavam a favor da união e contra a independência. "O que aconteceu em Clydebank não é representativo do que os trabalhistas pensam", declara o deputado.
Mas alguns eleitores trabalhistas da vida toda pensam em apoiar a independência. Como John Holden, 67, que trabalha controlando o tráfego diante de uma escola e que renega os ingleses. "Acabaram com a indústria aqui", afirma. "Por mim podem ir embora. Com a independência as coisas irão muito melhor, porque teremos o petróleo e poderemos reavivar a indústria", diz. Mas admite que a independência não tem muitas possibilidades de ganhar: "Não parece. Está um pouco indefinido por enquanto... meio a meio...". "Eu sempre votei trabalhista. Quase sempre. E nunca votei conservador. Nunca, jamais", acrescenta ao se despedir.
Nem todos veem as coisas tão claramente. "Não tenho muita certeza se voto de uma forma ou de outra. Até setembro não decidirei o que vou fazer. A única certeza é que votarei", reconhece Jean, 84. De que precisa para se decidir? "Realmente não sei", ri.
Liam, 29, está escolhendo o que parece um anel de noivado diante da vitrine de uma joalheria. Ele sabe o que fará. "Por enquanto estou no lado do não, porque creio que estaremos melhor se não ficarmos na união. Embora haja aspectos da independência que me atraem, como não ter submarinos nucleares." Isso significa que ainda pode mudar seu voto? "Votarei não", afirma.
John, 57, carteiro desempregado há um ano, pensa o mesmo. "Sou contra a independência porque não creio que seja o melhor para nós. Mesmo que fosse economicamente viável, não sei se seria melhor ou não. Estou bastante de acordo que as coisas continuem como estão hoje", afirma.
Para Moira e Sophie, 18, o referendo não interessa. "Não vou votar. Não me importa", diz Moira. "Eu também não. Não vejo sentido na independência", acrescenta Sophie. Mas, se tem opinião, por que não vota? "Não sei...", admite. Alex Salmond se empenhou em conseguir que os maiores de 16 anos votem, mas as pesquisas dizem que os jovens não se interessam pelo referendo nem pela independência. Como Moira e Sophie...
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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