Marie Delcas - Le Monde
A aposentada Graciela Amaya comemora: "Finalmente o presidente Nicolás
Maduro decidiu endurecer contra os capitalistas, que estão matando o
povo de fome". Para encontrar carne de porco assada por 45 bolívares (R$
16) o quilo, ela acordou às 4 horas da manhã. O mercado Mercal, que
vende produtos a preços subsidiados, fica nas ruas escuras do centro de
Caracas. Ali se vende de tudo, até mesmo açúcar, óleo, farinha de milho e
leite em pó.
"A oposição tem ódio porque o governo tem governado para nós, os pobres. Ele obriga os ricos a abaixarem os preços", explica Graciela. Na véspera, Maduro chamou as forças de ordem para "prender imediatamente" os comerciantes pegos em flagrante "remarcando etiquetas", expressão local para se referir ao aumento de preços. Nesse país que é o quinto maior exportador de petróleo do mundo e um grande importador de todo o resto, a inflação chegou a 54% nos 12 últimos meses.
E ainda que o preço do barril continue a subir para além dos US$ 100, o índice de crescimento mal deverá ultrapassar os 2,5% este ano, sendo que o prognóstico acaba de ser revisto para baixo. No início do ano, o Banco Central (BCV) contava com um crescimento de 6%. As reservas internacionais caíram 23 bilhões. Elas eram de 42 bilhões de dólares em 2008 e de 30 bilhões no início do ano.
Combate à corrupção
"Os plenos poderes não permitem que Maduro estabeleça por decreto o crescimento", ironiza um jovem economista do BCV. No dia 19 de novembro, a Assembleia Nacional votou uma lei que autoriza o chefe do Estado a legiferar por decreto em matéria econômica. Ela deve permitir que Maduro enfrente a "guerra econômica" conduzida pela oposição que, segundo ele, é responsável por todos os males do país.E também que combata a corrupção que corrói o país. Na TV e no rádio, os políticos e candidatos chavistas convocam o povo a se mobilizar contra "a burguesia parasitária, o capitalismo especulativo e o imperialismo". O chefe do Estado anunciou que os aluguéis comerciais agora seriam limitados em 250 bolívares por metro quadrado, ou seja, 30 euros (R$ 97) pelo câmbio oficial e menos de 4 (R$ 13) na cotação paralela.
Quinze dias atrás, o presidente Maduro enviou o Exército para tomar o controle da Daka, uma rede de lojas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos. Os televisores de tela plana foram vendidos a 20% do preço original. Não sobrou nada nas lojas. "E a lição funcionou, todos os comércios baixaram seus preços, até os de roupas", afirma Graciela. Maduro foi claro: "No dia 8 de dezembro o povo não vai fazer fila na Daka, vai votar", ele instruiu a seus eleitores.
Muitos comerciantes conseguem do governo dólares pelo câmbio oficial de 6,2 bolívares e revendem as mercadorias importadas pelo câmbio do mercado negro. O dólar, que disparou desde o início do ano, agora é comercializado a uma cotação oito ou nove vezes maior. Instaurado em 2003, o controle cambiário foi responsável por imensas fortunas tanto entre os "boliburgueses" --apelido dado aos que enriqueceram com a "revolução bolivariana"-- quanto entre a oposição.
Dilapidação da economia
"Quem criou o 'Cadivi'? Quem concede os dólares?", perguntou pelo Twitter o líder da oposição, Henrique Capriles Radonski. O Cadivi, instituição encarregada de administrar o câmbio e distribuir as divisas, opera na mais completa opacidade. Favoritismo, intrigas e propinas imperam ali.Na opinião de economistas próximos da oposição, o controle dos aluguéis comerciais só vai contribuir para desencorajar ainda mais os investidores e para estimular os contratos paralelos e a ilegalidade. Para eles, 14 anos de "chavismo" foram responsáveis pela dilapidação da economia. Segundo a organização patronal Fedecamara, 4.000 indústrias fecharam ao longo dos dez últimos anos e 205 mil empresas privadas também. Os mais preocupados acreditam que a estatização completa da economia agora é inevitável.
"As medidas populistas do governo vão agravar ainda mais os problemas", acredita o comerciante Braulio. "Mas é preciso reconhecer que foi uma boa jogada política. Em vez de tentar uma recuperação, Maduro está apostando no endurecimento e o povo aplaude". O chefe do Estado quer "blindar a transição para o socialismo". Uma transição que soa um tanto precipitada. Em off, mesmo os chavistas que consideram inevitável uma desvalorização com o tempo estão preocupados com o futuro.
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