sábado, 4 de maio de 2013

Indústria tradicional paulista desiste de exportar e cria deficit
Em 2006, exportações do Estado venciam importações em US$ 9 bi; hoje, importações são US$ 18 bi maiores
Balança comercial de SP mostra dificuldades da indústria; bicicletas, lavadoras e vestuário simbolizam o problema
RICARDO MIOTO - FSP
Entre 2006 e 2012, a exportação de máquinas de lavar fabricadas no Estado de São Paulo caiu 77%. Foi feia também a queda do vestuário (52%) e das bicicletas (87%)
Por outro lado, as importações desses produtos subiram respectivamente 525%, 531% e mais de 800%. Esses três tradicionais setores da indústria paulista contam a história de uma tendência mais geral.
Em 2006, o Estado tinha um superavit na balança comercial de US$ 9 bilhões --ou seja, as exportações excediam as importações. De lá para cá, a situação se inverteu. Hoje, o Estado é deficitário em US$ 18 bilhões ao ano.
A balança comercial paulista serve como termômetro da situação industrial do país, tanto na exportação (o Estado ainda é o centro industrial nacional) quanto na importação (o Estado é a sede de muitas importadoras).
CAUSAS DA MUDANÇA
O consultor Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do governo federal, cita, entre outras, três causas para essa rápida mudança:
1) O aumento da renda no país sem aumento correspondente dos investimentos (e da produção) fez com que os consumidores passassem a se saciar com importados.
2) A infraestrutura (como portos) ficou congestionada, minando a competitividade. Com pleno emprego, a mão de obra também encareceu.
3) Depois da crise internacional de 2008, o mercado global se complicou. Com o consumo americano e europeu contido, produtos que antes iam a esses mercados inundaram países como o Brasil.
Há ainda uma discussão sobre o papel do câmbio valorizado nessa mudança.
Roberto Giannetti, diretor de comércio exterior da Fiesp, federação das indústrias do Estado, diz que ele "é o pior dos problemas" --moeda valorizada significa importação barata e exportação cara.
"São Paulo é o Estado mais penalizado pelo câmbio valorizado. A baixa competitividade dos nossos manufaturados não tem a ver com a gestão das empresas, com a nossa referência tecnológica ou mesmo com a qualidade de mão de obra, que tem um padrão razoável de produtividade."
Economistas mais liberais podem discordar.
Para Rodrigo Constantino, fundador do Instituto Millenium, "a taxa de câmbio é apenas mais um fator [da baixa competitividade], e nem de perto o único ou o mais importante".
Para ele, tanto quanto resolver os problemas estruturais, é preciso reforçar os incentivos para que nossas empresas busquem maior eficiência. "Só a competição coloca a devida pressão nos empresários."
Outra opção para reduzir a concorrência externa, que o governo tem utilizado, é aumentar impostos de importados. Giannetti vê como "um erro para corrigir o primeiro [o câmbio]".
Constantino também critica: "É um tiro no pé. Ajuda alguns amigos do rei, mas faz empresário investir mais em lobby em Brasília do que em competitividade".

De selins a lavadoras com secagem, Estado não consegue competir
FSP
Certas marcas de bicicleta, como Caloi, Monark, Sundown, trazem nostalgia da infância, mas já estiveram melhor. A paranaense Sundown, terceiro lugar nos anos 90, desistiu das bicicletas para se concentrar em motos.
A paulista Monark (que, com a também paulista Caloi, dominava o mercado) ainda faz bicicletas, mas encolheu. Em 2002, em valores corrigidos, lucrou R$ 52 milhões. Nos quatro últimos trimestres divulgados, foram R$ 12 milhões. Em 2010, fechou a enorme fábrica em Santo Amaro e alugou um prédio em Indaiatuba.
Mais comuns hoje são bicicletas sem marca definida, chinesas, ou com marcas brasileiras, mas montadas com componentes asiáticos.
De 2006 a 2012, no Estado, a importação de quadros (o esqueleto da bicicleta) subiu 352%. O mesmo aconteceu com selins (295%), pedais (282%) e outras partes.
A Caloi tem uma fábrica em Atibaia (SP) e segue líder, mas não deixa de sofrer com a concorrência asiática. Em 1994, vendeu 1,9 milhão de bicicletas. Em 2012, 1,1 milhão.
LAVADORAS E ROUPAS
São paulistas duas importantes fábricas de máquinas de lavar: a da Whirlpool (que faz Brastemp e Cônsul), em Rio Claro, e a da Electrolux, em São Carlos. O caso delas é o único em que a China não é protagonista. Os dois países mais envolvidos no enredo são Coreia do Sul e Argentina.
Da Coreia, LG e Samsung se destacam vendendo no Brasil suas lava-e-seca. Em 2005, custavam R$ 6.000. Hoje, R$ 2.000. A Whirlpool diz estar estudando fazê-las aqui.
Já a Argentina aparece na outra ponta, como importadora dos nossos produtos. Ela é, via Mercosul, o principal destino das exportações paulistas, à frente dos EUA, pois compra muitos manufaturados. Ou comprava: as exportações de eletrodomésticos ao país sofreram depois que ele começou a impor, nos últimos anos, barreiras aos industrializados brasileiros.
No vestuário, calcinhas e pijamas femininos mostram uma tendência maior. Em 2006, o Estado exportou 451.660 unidades. Em 2012, 10.030.
As importações dos EUA mostram algo. O Brasil, que tem um grande polo têxtil em Americana (SP), é o seu 48º fornecedor de roupas. Perde dos asiáticos ultracompetitivos China (1º), Vietnã (2º) e Indonésia (3º), mas também de países como Peru (17º), Colômbia (29º) e Israel (32º).
Para o Sinditêxtil-SP, que reúne produtores do Estado, o Itamaraty, avesso a acordos de livre comércio com os EUA fora do Mercosul, ele deixa o país refém dos argentinos.

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